À beira do abismo: o novo estágio da guerra na Síria

por Fabiano Mielniczuk [i]

A derrubada de um caça russo pela Turquia em sua fronteira com a Síria coloca o mundo em um estágio de alerta. Dificilmente a Rússia deixará passar a atitude turca sem algum tipo de retaliação. Essa expectativa se reforça se considerarmos os detalhes da tragédia: a Turquia abateu a aeronave russa, os pilotos ejetaram em uma área controlada por rebeldes sírios de origem turca e foram metralhados antes de conseguirem chegar ao solo. Em seguida, em uma operação de resgate desses pilotos, um helicóptero russo é atingido por um projétil de um TOW americano, uma espécie de bazuca antitanque distribuída pelos EUA aos rebeldes assim que os russos iniciaram as operações contra grupos insurgentes na Síria. Todos esses fatos foram registrados em vídeo e publicados na internet por grupos de ‘rebeldes moderados’ poucas horas após sua gravação. 

O evento tem implicações políticas e militares alarmantes. No campo político, pode representar o fracasso das tentativas francesas de criar uma coalizão unindo a Rússia, o Irã, a Europa e os Estados Unidos contra o Estado Islâmico. Esse resultado não se daria apenas em função do aumento da animosidade entre Rússia e OTAN – consequência bastante previsível em função de a Turquia ser membro da Aliança do Norte. O fracasso viria também pelo efeito da ação turca sobre a relação entre Europa e Estados Unidos. Enquanto o presidente Obama apressou-se em manifestar seu apoio à Turquia na defesa de sua soberania, os europeus pediram moderação entre as partes e, em alguns países, surgiram críticas explícitas à imprevisibilidade do aliado turco. Aliás, a própria conivência da Turquia com grupos rebeldes da Síria que lutam contra os curdos – um dos principais aliados ocidentais contra o regime de Assad – e a falta de vontade do governo de Erdogan em combater a exportação de petróleo do Estado Islâmico via seu território já representavam um problema à unidade dos ocidentais, que tende agora a se agravar. Na ausência de uma coalizão, a França fica à deriva e volta à condição de parceiro menor da estratégia americana para a região. Essa situação beneficia o Estado Islâmico, e prolonga a ameaça que esse representa à ordem internacional.

No campo militar, a situação é ainda pior. Pela primeira vez em mais de 50 anos um avião de combate da Rússia é derrubado por um membro da OTAN. As circunstâncias que ensejaram o ataque são bastante controversas. Do lado russo, são apresentadas uma série de evidências para se afirmar que o caça russo não invadiu o espaço aéreo turco. Do lado turco, sustenta-se que os russos violaram o espaço aéreo e foram avisados sobre isso dez vezes, em um intervalo de cinco minutos. Ao que tudo indica, houve uma invasão do espaço aéreo turco por segundos, e a retaliação teria ocorrido já quando a aeronave russa se encontrava em espaço aéreo sírio.

Em um processo claro de início de escalada nas tensões, a Rússia anunciou que as missões militares de ataques com caças, a partir deste evento, contarão com o apoio de embarcações de guerra localizadas no Mediterrâneo, as quais serão responsáveis por monitorar as operações e atacar qualquer ameaça percebida aos aviões russos. A possibilidade de uma ataque russo a aviões de caça turcos que patrulham a fronteira do país torna-se, assim, muito mais presente. Caso essa realidade se concretize, a Turquia pode considerar o ataque um ato de guerra, e invocar o tratado de constituição da OTAN para exigir que os aliados ocidentais retaliem as ações russas. A paz no mundo dependeria da resposta ocidental.

Como atestam os historiadores da I Guerra Mundial, grandes guerras podem começar a partir de problemas regionais não resolvidos em razão da incapacidade das grandes potências em flexibilizar seus interesses. Desde o fim da Guerra Fria, as potências mundiais exerceram certo grau de transigência – seja por limitação em suas capacidades ou por vontade própria. Assim, os conflitos na antiga Iugoslávia, a invasão do Iraque, a Guerra Russo-Georgiana e os ataques à Líbia foram administrados de modo que não houvesse a possibilidade de que as crises regionais se tornassem um conflito maior. Infelizmente, as guerras civis na Ucrânia e na Síria mudaram essa realidade. As grandes potências passaram a ser inflexíveis. No caso da Síria, a situação é ainda mais grave, por aproximar forças militares que atuam com objetivos diferentes em um mesmo cenário de guerra. A chance de algo dar errado é bastante grande e a consequência seria catastrófica para a humanidade. Vamos torcer para que isso não aconteça.

Análise publicada originalmente no Estadão Noite em 25 Novembro 2015 e publicada aqui com autorização do autor.

[i] Diretor da Audiplo e Professor da ESPM-Sul

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