Reaparelhamento militar e a nova/velha Política externa russa

Por Felipe Costa Lima

“A integridade territorial da Rússia não está sujeita a negociações. (…) Tomaremos ações duras contra qualquer um que viole nossa integridade territorial. A Rússia tem sido um grande poder há séculos, e continua sendo. Sempre teve e ainda tem áreas de legítimas de interesse no exterior, em antigas terras soviéticas e além. Não devemos baixar nossa guarda, nem deixar que nossa opinião seja ignorada.” (1). Após 16 anos de seu discurso para a Duma, durante sua aprovação como Primeiro-Ministro da Rússia, Vladimir Putin cumpre sua promessa de restabelecer uma política externa russa mais assertiva e a hegemonia sobre os antigos territórios soviéticos.

A curta guerra russo-georgiana, em 2008, demonstrou à burocracia russa os enormes problemas das Forças Armadas da Rússia, principalmente no que concernia a seus equipamentos e suas práticas antiquadas. Conquanto a Rússia tivesse grande superioridade qualitativa e quantitativa no conflito, inúmeras perdas ocorreram, porquanto, no ano de 2009, o ex-presidente Dmitri Medvedev anunciou um amplo plano de rearmamento militar, destinado à compra de armas e ao desenvolvimento do complexo militar-tecnológico russo [2]. Esse amplo plano de modernização das forças armadas teria orçamento de cerca de 500 bilhões de euros [3], até o ano de 2020. No que concerne à venda de armas, segundo o relatório publicado em 2014, pelo Instituto Internacional de Estocolmo para Pesquisas da Paz, entre 2009 e 2013, a Rússia aumentou para 27% a sua participação no mercado bélico internacional, apenas dois pontos percentuais a menos que os EUA, o maior exportador mundial [3].

A recuperação militar russa não foi feita, somente, a partir do aumento de investimentos e do desenvolvimento de novas tecnologias militares, na medida em que a demonstração de força, por intermédio de índicios e sinais, tornou-se primordial para dissuadir os EUA e seus aliados a expandir ainda mais as atividades da OTAN e impedir intervenções ocidentais na política interna dos ex-territórios soviéticos – Os EUA e seus aliados influenciaram essa região, principalmente por meio das Revoluções Coloridas ocorridas nos territórios das ex-repúblicas soviéticas [4]. Em seu discurso para sua reeleição, em 2012, Putin afirmou como prioridade a necessidade de responder à implantação de um escudo antimíssil, na Europa, pelos Estados Unidos e pela OTAN, mediante o “reforço do sistema de defesa aérea e espacial do país” [5]. Somado a isso, no final de 2014, a nova doutrina militar russa apontou os Estados Unidos e a OTAN como as maiores ameaças para a segurança nacional da Rússia.

Exercícios militares requerem preparações que não podem ser escondidas [6], entretanto esse aparente tradeoff é extremamente benéfico a um país como a Rússia, que não tem interesse em manipular esses sinais de força, mas sim demonstrá-los explicitamente para seus potenciais inimigos. Os exercícios militares conjuntos entre o segundo e o terceiro maior exército do mundo (Rússia e China, respectivamente) é um sinal importantíssimo do poderio e da disposição russa em influenciar as Relações Internacionais de um modo mais assertivo. Entre as manobras militares, houve, em maio de 2014, a terceira manobra conjunta dessas potências militares, no mar do Leste da China, no Mediterrâneo, e, em agosto desse mesmo ano, conduziram seus exercícios terrestres em conjunto com outros três países da Organização de Cooperação de Xangai [7].

A Rússia vem, ostensivamente, preparando suas forças e criando pequenos incidentes para manipular seus sinais e fazer sua mensagem mais crível no âmbito internacional [8], como no caso da invasão do espaço aéreo japonês, em fevereiro de 2013 [9]; o ataque simulado realizado à Suécia, em abril de 2013 [10]; a invasão do espaço aéreo ucraniano, em março de 2014 [11]; as conversas sobre a criação de bases militares em países do Sudoeste da Ásia e da América Central [12]; interceptação, pela força aérea britânica, de bombardeiros russos voando sobre o Canal da Mancha, em janeiro de 2015 [13]. Somado a isso, o presidente da Ucrânia, Petro Poroshenko, acusou a Rússia de usar a região do leste ucraniano como uma “zona de testes” para seu armamento mais avançado [14]. Em julho de 2015, o presidente da Federação Russa, Vladimir Putin, anunciou o reforço do arsenal nuclear russo com mais de 40 mísseis de longo alcance, “capazes de superar os sistemas de defesa mais avançados”. A revelação surgiu dois dias após a notícia que dava conta da aspiração dos Estados Unidos em armazenar equipamento militar pesado nos países da Europa do Leste, pretensão descrita pelas autoridades russas como “o mais agressivo passo dado desde a Guerra Fria” [15]. Em 2014, a OTAN conduziu mais de 100 interceptações de aeronaves russas, cerca de três vezes a mais do que em 2013, em meio a um aumento nas tensões entre Moscou e o Ocidente devido à crise na Ucrânia[16].

A presença russa, em dois pontos extremamente estratégicos, preocupa os EUA e seus aliados europeus: Kaliningrado (antiga região alemã de Königsberg e, desde o fim da Segunda Guerra Mundial, um enclave russo entre a Polônia e a Lituânia) e a península da Crimeia, anexada, em 2014, pela Federação Russa, em contraposição à Ucrânia. Grande parte do território polonês é coberta pelo alcance dos mísseis antiaéreos russos, assim como para boa parte do Báltico. No que concerne à Crimeia, o controle russo do mar Negro é especialmente preocupante para os EUA e seus aliados, na medida em que a Rússia estabeleceu força considerável na região de Latakia, na Síria, por intermédio deste. A partir da projeção de poder aeronaval no leste do Mediterrâneo e no mar Negro, os russos cobrem virtualmente todas as rotas de exportação de petróleo e gás pelo mar na região, e podem interditá-las militarmente em caso de conflito futuro [17].

A Rússia não tenta manipular os sinais, mas sim usar esses comportamentos explicitamente. No conflito sírio, quando Vladimir Putin informou aos outros governos que a Rússia não ficaria indiferente, no que concerne a essa controvérsia internacional, ele estava claramente afirmando que iria intervir para a manutenção de seus interesses, já que as experiências e tradições históricas russas comprovam os significados desse sistema de sinais [18]. A intervenção russa no conflito sírio demonstra a tentativa da Rússia de se colocar no contexto internacional como uma superpotência, o que pressiona, consequentemente, de maneira extrema, os países da ex-URSS, na medida em que o projeto da União Euroasiática (UEE) [19] é primordial para os interesses russos, portanto, a adesão da sua antiga área de hegemonia a esse projeto integracionista é essencial para o restabelecimento hegemônico russo. Desde o inicio do conflito sírio, o Tajiquistão anunciou a vontade de entrar na UEE, em dezembro de 2012; o Quirguistão, em maio de 2013, a Geórgia, em setembro de 2013, enquanto a Armênia passou a fazer parte desse projeto em setembro de 2013. A Moldávia e a Ucrânia são países indispensáveis para esse projeto russo, que não deixará que esses territórios, pertencentes à sua hegemonia histórica, sejam englobados pela hegemonia estadunidense na região. A partir disso, a projeção de poder da Federação Russa, no contexto internacional, proporciona resultados práticos no contexto regional.

O objetivo central da retomada do desenvolvimento do aparato militar-tecnológico russo é a afirmação hegemônica sobre as antigas repúblicas soviéticas. O renascimento dessa superpotência militar, apesar das debilidades econômicas da Rússia, em decorrência da diminuição do preço do barril de petróleo [20], demonstra a disposição russa de utilizar todos os meios, inclusive militares, para a manutenção e reafirmação de sua posição regional e global.  Percebe-se, assim, que o interesse geopolítico russo, no que concerne ao conflito sírio, tem vinculação intrínseca com suas pretensões regionais. Desde o início de seu mandado, Vladimir Putin deixou clara a luta da Federação Russa para restaurar o orgulho e a importância russa no âmbito regional e global, visto que, “…o colapso da União Soviética foi a maior catástrofe geopolítica do século” [21], porquanto cerca de 25 milhões de russos, de um dia para o outro, estavam localizados fora do seu país de origem. Todo o reaparelhamento militar da Federação Russa converge para esse objetivo de restauração.

Em entrevista ao 60 minutes, em outubro de 2015, Putin afirmou que a característica que mais aprecia nos norte-americanos é a criatividade. Entretanto, a criatividade e competência russa, até este momento, para recuperar o poderio perdido com a desintegração soviética, foram dignas de uma verdadeira potência. A assertividade russa, nos temas internacionais atuais, comprova o nascimento de uma nova Rússia – na verdade, o renascimento de uma velha Rússia -, principalmente a partir da ascensão de Vladimir Putin

[1] Discurso de posse de Vladimir Putin como Primeiro-Ministro da Rússia, perante o Parlamento Russo (Duma). 16 ago. 1999. Disponível em: http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2014/03/140328_putin_urss_pai. Acesso em: 01/11/2015

[2] Rússia anuncia plano de rearmamento militar. 17 mar. 2009. The BBC. Disponível em: http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2009/03/090317_russiarearma_ba.shtml. Acesso em: 31 out. 2015

[3] Idem 2

[4] Revolução colorida é a designação atribuída a uma série de manifestações políticas de oposição que envolveu a derrubada de governos considerados anti-estadunidenses e pró-Rússia, e sua substituição por governos pró-Ocidentais. Ocorridas a partir dos anos 2000, a maior parte dos casos bem sucedidos de revoluções coloridas ocorreu na área de influência ou no território da antiga União Soviética,

[5] Putin promete rearmamento da Rússia sem precedentes. 20 fev. 2012. O Globo. Disponível em: http://g1.globo.com/mundo/noticia/2012/02/putin-promete-rearmamento-da-russia-sem-precedentes.html. Acesso em: 31 out. 2015

[6] Jervis, Robert. 1989 [1970].The Logic of Images in International Relations.New York, Columbia University Press

[7] “A Organização para Cooperação de Xangai é uma aliança política, econômica e militar, fundada em 1996, composta por seis Estados-Membros, incluindo a Rússia, China, Cazaquistão, Quirguistão, Tadjiquistão e Uzbequistão (…). No momento, a Índia e o Paquistão, bem como a Mongólia, Irã e Afeganistão mantêm o status de observadores, enquanto a Bielorrússia, Turquia e Sri Lanka são parceiros no diálogo com a SCO”. http://www.ebc.com.br/noticias/internacional/2015/10/india-e-paquistao-negociam-entrada-na-organizacao-para-cooperacao-de. Acesso em: 31 out. 2015

[8] Idem 06

[9] Rússia nega que caças tenham invadido espaço aéreo japonês. 07 fev. 2013. O Globo.  Disponível em: http://g1.globo.com/mundo/noticia/2013/02/russia-nega-que-cacas-tenham-invadido-espaco-aereo-do-japao.html. Acesso em: 29 out. 2015

[10] Polônia critica ataque simulado à Suécia realizado pela Rússia. 24 abr. 2013. Disponível em: https://www.aereo.jor.br/2013/04/24/polonia-critica-ataque-simulado-a-suecia-realizado-pela-russia/. Acesso em: 31 out. 2015

[11] Caças russos invadem o espaço aéreo da Ucrânia. 03 mar. 2014. EBC. Disponível em: http://agenciabrasil.ebc.com.br/internacional/noticia/2014-03/cacas-russos-entram-no-espaco-aereo-da-ucrania. Acesso em: 31 out. 2015

[12] Ministério da Defesa recupera bases militares no estrangeiro. 01 mar. 2014. Disponível em: http://br.sputniknews.com/portuguese.ruvr.ru/2014_03_01/ministerio-da-defesa-da-federacao-russa-cuida-de-recuperar-as-bases-militares-no-estrangeiro-8298/. Acesso em: 31 out. 2015

[13] Reino Unido envia caças para interceptar bombardeiros russos. 29 jan. 2015. O Globo Disponível em: http://g1.globo.com/mundo/noticia/2015/01/reino-unido-envia-cacas-para-interceptar-bombardeiros-russos.html. Acesso em: 27 out. 2015

[14] Poroshenko diz que Rússia usa Ucrânia para testar armas avançadas. 20 jun. 2015. Valor Econômico. Disponível em: http://www.valor.com.br/internacional/4101878/poroshenko-diz-que-russia-usa-ucrania-para-testar-armas-avancadas. Acesso em: 30 out. 2015

[15] Saraiva Lima, Antônio. Rússia acrescenta 40 mísseis balísticos intercontinentais ao seu arsenal nuclear. 16 jun. 2015. Público. Disponível em: http://www.publico.pt/mundo/noticia/russia-acrescenta-40-misseis-balisticos-intercontinentais-ao-seu-arsenal-nuclear-1699174. Acesso em: 31 out. 2015

[16] Idem 13

[17] Gielow, Igor. Rússia desafia poder militar aéreo norte-americano. 15 set. 2015. Folha de SP. Disponível em:  http://www1.folha.uol.com.br/mundo/2015/09/1681886-russia-desafia-poder-militar-aereo-norte-americano.shtml. Acesso em: 30 out. 2015

[18] Idem 06

[19] União Económica Euroasiática: A resposta do leste à União Europeia. Disponível em:  http://pt.euronews.com/2015/05/23/uniao-economica-eurasiatica-a-resposta-de-leste-a-uniao-europeia/. Acesso em: 28 out. 2015

[20] Nidecker, Fernanda. Dependência de petróleo e gás ameaça desempenho da Rússia como potência econômica.  31 mar. 2009. The BBC Disponível em: http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2009/03/090331_russiaeconomia_fp.shtml. Acesso em: 27 out. 2015

[21] Para Putin, fim da URSS foi catástrofe geopolítica. 25 abr. 2005. The BBC. Disponível em: http://www.bbc.com/portuguese/noticias/story/2005/04/050425_putinro.shtml. Acesso em: 28 out. 2015

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