A jornada de Li Keqiang na América Latina – Parte 1

por Javier A. Vadell [1]

 “Continuidade e reforço do projeto chinês na América Latina”

Análises de conjuntura são um exercício perigoso. Muitas vezes, uma boa análise que aponta e se debruça num acontecimento significativo tende a perder a noção do contexto mais geral e compreender o fato como um ponto de inflexão ímpar, uma ruptura ou mudança de paradigma de uma política específica. De fato, frequentemente não se trata de uma maior ou menor amplitude do foco da análise, e sim de levar em consideração a cadeia de acontecimentos históricos e as particularidades que dela derivam em toda sua complexidade e contradições.

Analistas têm afirmado que as visitas do primeiro Ministro chinês, Li Keqiang, ao Brasil, Peru, Chile e Colômbia seriam um indicador de virada na política de investimentos, ajudas/doações e empréstimos da República Popular da China (RPC) para América Latina, focando agora em Estados com governos de centro-direita ou mais “market-friendly”. Nessa linha, uma interessante matéria do Financial Times (Hornby, Schipani. 2015) apontou para uma mudança na em relação ao países da América Latina alavancada nas declarações de Li Renfang, um analista sobre a América Latina da “Southwest University of Science and Technology” em Sichuan[2], China, e nos destinos da visita do premier chinês. Estes fatos corroborariam a hipótese de que a China começaria a focar seus empréstimos e investimentos nos países não contaminados pelo ‘esquerdismo’.

Nossa perspectiva é diametralmente oposta a esta corrente de análises[3]. Em primeiro lugar, devemos ter muito cuidado em relacionar países com graus de abertura econômica maior e governos de centro-direita. Nem sempre há uma coincidência mecânica entre eles, como é o caso do Chile e do Brasil, governados por coalizões de centro-esquerda. Em segundo lugar, afirmar uma hipótese a partir de uma acontecimento específico, isto é, a visita oficial  de Li Keqiang à América Latina, sem perspectiva histórica, sem levar em consideração a trajetória de relacionamento da RPC com o Sul Global e sem estar ancorado em declarações oficiais que apontem para uma mudança só consegue confundir os leitores e leitoras imersos na vertigem dos acontecimentos.

Devemos levar em consideração duas variáveis para fazer uma análise dos acordos da PRC com a América Latina (e com o Sul Global). No processo de tomada de decisões na China, o presidente, neste caso Xi Jinping, é a máxima autoridade e o encarregado de levar a cabo as negociações de alto nível que envolvem questões de máxima segurança, estratégias globais do país e parcerias estratégicas globais. O Primeiro Ministro, no caso Li Keqiang, na divisão de funções interna, tem como objetivo a negociação de acordos econômicos do mais amplo espectro. De fato, Li é um economista que no passado tem gerenciado a abertura econômica em diversas regiões da China (ELLIS, 2015). Se levarmos em consideração essa variável e o fato de que o presidente Xi Jinping esteve já duas vezes na região, em 2013 visitando Trinidad y Tobago, Costa Rica e o México e, em 2014, Brasil, Argentina, Cuba e Venezuela, podemos concluir que:

  • não houve (e não haverá no curto e médio prazos) nenhuma mudança da política externa chinesa de financiamentos para a região. Eles vêm sendo incrementados desde 2010 em diversas áreas, especialmente infraestrutura;
  • os únicos financiamentos e investimentos de peso em infraestrutura na América Latina são oriundos da China, de maneira direta ou por intermédio da Rede Chinesa de Bancos de Desenvolvimento (RCBD)[4], a exceção do Porto de Mariel financiado pelo BNDES do Brasil e que será operado pela firma PSA International Pte Ltd. da Singapura (ESCOBAR. 2015)
  • a RPC não leva muito em consideração o tinte político dos governos com os quais realiza negócios. O alto grau de pragmatismo não é recente, ele tem um histórico na América Latina no decorrer do século XX e não há indícios de mudanças[5].
  • O relacionamento com o Brasil e a Argentina (e talvez em menor medida com a Venezuela) se configura como estratégico para a RPC, no subcontinente. No plano econômico, a dimensão dos países e diversidade de riquezas naturais/energéticas de ambos, além do volume comercial e o mercado que representam, os colocam como prioridade. No plano geopolítico, Brasil é o único país da América com presença na RCBD[6], como sócio fundador do Novo de Banco de Desenvolvimento dos BRICS (NBDB) e do Banco Asiático de Infraestrutura e Investimentos (BAII). Os últimos acordos bilaterais Brasil-China e Argentina-China mostram o grau de importância que ambos os países tem para a RPC na região.
  • Os acordos da RPC com Chile permitem observar o processo de ampliação da RCBD na América do Sul. Neste caso, Chile será uma espécie de plataforma financeira da rede bancária chinesa global. Nessa direção, Li Keqiang anunciou a criação do primeiro Banco de liquidação em Renminbi (RMB) na América do Sul. Esse tentáculo da rede financeira, além de financiamentos para investimentos, também serve ao propósito estratégico global chinês de ‘globalizar’. Segundo o Chanceler chileno, Heraldo Muñoz, “Chile, tornar-se-á um centro financeiro para a China realizar transações com a sua moeda”[7]. Entre os acordos está contemplada a participação do Chile no Banco Chinês de Construção, o segundo maior da China[8].

 De fato, estes elementos refutam a hipótese difundida de que a China confia mais em governos de centro-direita, como costumava dizer Mao Tsé-Tung ao ex-presidente dos Estados Unidos Richard Nixon (KISSINGER. 2011), na doce e afinada retórica cheia de parábolas do outrora líder revolucionário chinês. Hoje, quando o foco é de disputas econômicas e geopolíticas com menos peso no ideológico do que na Guerra Fria, não há evidências das supostas preferências chinesas de acordo com o viés político dos governos, no que concerne a seu relacionamento com o Sul global.

 Referências Bibliográficas

 El COMERCIO. “China escoge a Chile como su plataforma financiera para América Latina”. 26 mayo 2015. Disponível em: http://www.elcomercio.com/actualidad/china-chile-inversion-negocios-economia.html Acesso em: 26/05/2015

 ELLIS, Evan.  “Li Keqiang’s Latin America Trip: More, Not Different”.  23 may 2015. The Manzella Report. Disponível em : http://manzellareport.com/index.php/world/998-li-keqiang-s-latin-america-trip-more-not-different  Acesso em: 23/05/2015

 ESCOBAR, Pepe. BRICS trample US in South America. RT. 22 may 2015. Disponível em:  http://rt.com/op-edge/261237-brics-us-south-america-russia/ Acesso: 23/05/2015

 ESTADAO.  “Veja lista com todos os acordos assinados entre Brasil e China” 19 maio 2015. Disponível em:  http://m.economia.estadao.com.br/noticias/geral,veja-lista-com-todos-os-acordos-assinados-entre-brasil-e-china,1690488 Acesso: 23/05/2015

 ITAMARATY.  “Declaração Conjunta e Plano de Ação Conjunta – Visita do Primeiro-Ministro do Conselho de Estado da República Popular da China, Li Keqiang – Brasília, 19 de maio de 2015. Disponível em:   http://www.itamaraty.gov.br/index.php?option=com_content&view=article&id=9694&catid=42&Itemid=280&lang=pt-BR  Acesso em: 19/05/2015

 HORNBY, Lucy e SCHIPANI, Andres.  “China tilts towards liberal Latin American economies”. Financial Times. 11 maio 2015. Disponível em:    http://www.ft.com/intl/cms/s/0/b73a606c-f46b-11e4-bd16-00144feab7de.html#axzz3aMXgRlpM

 KISSINGER, Henry. On China. New York: Penguin Group. 2011.

 LA IZQUIERDA DIARIO. “La sombra del gigante chino sobre América Latina”. 27 maio 2015. Disponível em: http://www.laizquierdadiario.com/La-sombra-del-gigante-chino-sobre-America-Latina Acesso em: 27/05/2015

VADELL, Javier. The North of the South: The Geopolitical Implications of Pacific Consensus in South America and the Brazilian Dilemma. Latin American Policy [S.I.], v. 4, n. 1, p. 36-56,  2013. http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/lamp.2013.4.issue-1/issuetoc

VADELL, Javier; RAMOS, Leonardo.  As Sedutoras garras do dragão chinês: finanças e bifurcação do centro da economia global. 5 de abril 2015. Disponível em: https://grupoemergentes.wordpress.com/2015/04/05/as-sedutoras-garras-do-dragao-chines-financas-e-bifurcacao-do-centro-da-economia-global/

[1] Professor do Departamento de Relações Internacionais da PUC Minas, Coordenador do Grupo de Pesquisa sobre Potencias Médias (GPPM) e membro regular do Conselho Científico do Instituto de Estudos da Ásia da UFPE

[2] Li Renfang teria afirmado que é mais seguro para a China emprestar dinheiro a governos de centro-direita” (Hornby, Schipani. 2015)

[3] Coincide com a análise inicial realizada por Evan Ellis (2015)

[4] Para mais detalhes ver a análise de Vadell e Ramos (2015).

[5] Tratamos isso num trabalho anterior. Ver: Vadell (2013).

[6] Para mais detalhes ver a análise de Vadell e Ramos (2015).

[7] Ver: El Comercio (2015).

[8] Ver: La Izquierda Diario (2015).

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