O papel da China na nova arquitetura financeira mundial

por Diego Pautasso[1]

Não resta dúvida que a criação do sistema Bretton Woods, baseados no Banco Mundial, no Fundo Monetário Internacional e no dólar, constituiu um dos pilares hegemonia norte-americana. Da mesma forma, deve-se reconhecer que as crises financeiras nos anos 1990 – México (1994), leste da Ásia (1997), Rússia (1998), Brasil (1999) e Argentina (2001) -, a supremacia das políticas liberalizantes e a crise financeira global de 2008 atestaram os limites dos mercados auto‑regulados e necessidade de novos padrões de governança.

Assim, a crise de 2008 tem catalisado mudanças internacionais, cujos desdobramentos já se fazem sentir, embora não em toda sua extensão. A criação do Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura (Asian Infrastructure Investment Bank – AIIB) só pode ser compreendido como parte de uma nova arquitetura financeira global que, naturalmente, afeta as configurações de poder interestatais. O grande desafio é captar a direção e o sentido das mudanças em curso, pois estas representam, de um lado, um renascimento econômico da Ásia oriental (ARRIGHI, 2008) e, de outro, a conformação de um sistema sinocêntrico na região (PAUTASSO, 2011b). Em suma, trata-se de compreender o enigma chinês e seus efeitos sobre as estruturas hegemônicas de poder lideradas pelos EUA.

Nova arquitetura financeira emergente

Assim, a China tem trabalhado em todas as esferas para construir novas configurações de poder em escala global – sem com isso adotar postura revisionista. E a crise financeira de 2008 irradiada dos EUA parece ter acelerado esse movimento de reordenamento do poder global. Em face desse contexto, o governo chinês, utilizando-se de sua gigantesca capacidade financeira que emerge do tamanho do seu PIB, de suas reservas internacionais e de seus superávits comerciais, busca construir uma nova arquitetura econômico-financeira global. Primeiro, o protagonismo da China foi sinalizado através da afirmação do presidente do seu Banco Central, Zhou Xiaochuan, em março de 2009, acerca da necessidade de superar as vulnerabilidades de uma economia global ancorada em uma moeda nacional (dólar). Sublinhou Zhou a importância de repensar algo na linha do que havia sido proposto originalmente por Keynes às vésperas de Bretton Woods ou mesmo pelo fortalecimento dos Direitos Especiais de Saque (SDR – Special Drawing Rights) como substituto ao dólar[2], uma espécie de cesta de moedas criado em 1969 pelo FMI baseados no dólar estadunidense, iene, libra e euro.

Segundo, com a iniciativa do grupo BRICS que redundou na criação do Novo Banco de Desenvolvimento e do Acordo Contingente de Reservas na sua 6ª Cúpula em Fortaleza, em julho de 2014[3]. Trata-se 1) de um banco para financiamento de projetos de investimento nos BRICS e terceiros países da ordem de um capital subscrito de 50 bilhões de dólares e um capital autorizado de 100 bilhões e 2) de um fundo de estabilização para compartilhar reservas em contextos de crises financeiras no valor de 100 bilhões de dólares (divididos em 41 bilhões de dólares para a China, 18 bilhões para Brasil, Índia e Rússia e mais 5 bilhões para a África do Sul).

Terceiro, a China tem amplificado seu papel de financiador de obras no mundo através do Banco de Desenvolvimento da China e do Eximbank, criados em 1994 como bancos estatais de fomento. Entre 2005 e 2012, o financiamento chinês para a América Latina ultrapassou 86 bilhões de dólares, mais do que Banco Mundial, Eximbank dos EUA e Banco Inter-Americano de Desenvolvimento. Além de créditos abundantes, em geral tem os juros mais convidativos, garantidos por commodities (sem moeda forte), prazos alongados de pagamento, sem imposição de condicionalidades políticas (GALLAGHER; IRWIN; KOLESKI, 2013)

Quarto, o crescimento dos investimentos externos diretos (IED) e os contratos da China tem sido surpreendente. Cada vez mais o país se transforma não só num grande receptor mas em um grande emissor de IED. O estudo da Heritage Fundation, compilado por Derek Scissors, dá a exata dimensão da evolução e da sua distribuição por país e setor da economia até o ano de 2014[4]. Aliás, a China está se convertendo no maior emissor de investimento externo direto (IED) do mundo, em grande parte puxado por empresas estatais que atuam em consonância com os interesses governamentais (SANTOS; MILAN, 2014). Não por acaso tem sido vertigino a ampliação do número de empresas chinesas na lista das 500 maiores da Fortune: no ranking de 2014 já são 95 da China (e Hong Kong), enquanto os EUA caíram para 128[5].

Quinto, é o caso, por exemplo, da sua mais recente proposta de criar um sistema internacional de pagamento (China International Payment System-CIPS) ainda em 2015[6] – iniciativa que o governo russo também tem buscado ampliar para criar um sistema nacional de pagamento[7]. São iniciativas alternativas ao tradicional domínio do SWIFT (Society for the Worldwide Interbank Financial Telecommunication) fundada em 1973 em Bruxelas como principal mecanismo padronizado para transações financeiras globais (através de cartas de crédito e diversas formas de pagamento usando linguagem computacional comum). No fundo, o governo chinês trabalha para a desdolarização global e a internacionalização de sua moeda, o yuan, através da assinatura de swaps cambiários bilaterais, da instalação de centros de liquidação direta fora da Ásia e da abertura programada do mercado de capitais. Com efeito, o objetivo é ampliar a autonomia da China em relação a estruturas do mercado financeiro centradas nos EUA/União Europeia. O certo é que a desdolarização não é uma política cujo resultado dar-se-á no curto prazo, mas é certo também que uma economia que poderá ser 25% maior do que a dos EUA em 2050 necessariamente terá sua moeda demandada como reserva de valor[8].

Sexto, a formação do Fundo Rota da Seda[9], a ser constituído por 40 bilhões de dólares a partir de recursos das reservas internacionais e de bancos chineses (China Investment Corp., Export-Import Bank of China e China Development Bank). O objetivo é integrar a Eurásia recriando uma nova Rota da Seda, cujas diretrizes já foram explanadas pelo presidente Xi Jinping no Fórum Boao para a Ásia em março de 2015. Nesse documento[10], o governo reitera que recriação do eixo de cooperação entre Oriente e Ocidente deve fortalecer a inclusividade, o aprendizado e o benefício mútuos, de modo a impulsionar a coordenação política, o desenvolvimento de infraestrutura e a integração econômica (comercial e de investimentos). No entendimento da China, serão duas vias de ligação com a Europa: o Cinturão Econômico da Rota da Seda estabelecerá essa conexão através da Mongólia, Ásia Central e Rússia e da Rota da Seda Marítima será constituída através da Mar do Sul da China e no Oceano Índico.

Por fim, a criação oficial do Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura (AIIB) se deu em outubro de 2014, projetado para ter, inicialmente, um capital social de 100 bilhões de dólares, sendo metade alocado pela China. É um banco de desenvolvimento multilateral (MDB) tendo como foco o desenvolvimento de infraestrutura e outros setores produtivos na Ásia, complementando e cooperando com os bancos multilaterais de desenvolvimento existentes. Até o final de outubro de 2014, 22 países asiáticos assinaram um Memorando de Entendimento (MOU) para estabelecer o AIIB, tendo Pequim como sede e Jin Liqun como seu primeiro Secretário-Geral Interino.[11] Embora tenha sido uma iniciativa voltada à região, como sugere o nome do banco, foi criado com 57 membros fundadores, incluindo aliados norte-americanos. O fato é que a iniciativa ganhou uma importância muito maior e demonstrou a reduzida capacidade dos EUA de dissuadirem seus aliados. Reconheceu o ex-secretário do Tesouro dos EUA, Lawrence Summers[12], que a China pode abalar a hegemonia econômica dos EUA.

Considerações finais

A China tem apresentado uma crescente capacidade financeira, manifesta i) nas suas reservas internacionais de cerca de 4 trilhões de dólares[13]; ii) na importância global de seus bancos, que em 2004 não possuíam nenhum entre os 10 maiores do mundo e em 2013 já tinha o primeiro, segundo, sétimo e nono (Industrial and Commercial Bank of China (ICBC), China Construction Bank, Bank of China e o Agricultural Bank of China)[14]; e iii) na participação ativa na criação e fortalecimento dos bancos de desenvolvimento, como o China Development Bank (CBD-1994), o China-Africa Development Bank (CAD Fund-2007), o Novo Banco de Desenvolvimento do BRICS (NBD-2014) e agora o Banco Asiático de Investimento em Infraestrutra (AIIB-2014). O resultado é a condição para liderar a construção de uma nova arquitetura financeira global que, embora de maturação e desdobramentos incertos, tende i) a aprofundar a integração infraestrutural e econômica da região, ii) a projetar a liderança regional (e global) da China e iii) a fortalecer novos sistemas de governança na economia mundial.

Não resta dúvida que a China está consciente de que seu desenvolvimento ainda é recente e, por isso, precisa amadurecer sua trajetória para assumir o papel e a responsabilidade de um líder regional ou até mesmo global (OLIVEIRA; LEITE, 2014). Parece evidente também que a China tem se tornado progressivamente mais assertiva, sem, contudo, precisar ser revisionista, dado que o status quo internacional não restringe sua ascensão. Assim, a situação internacional atual permite à China acumular forças e, ao mesmo tempo, na medida que a correlação de forças vai se alterando, buscar construir alternativas internacionais em diversos campos. Enquanto os EUA parecem incapazes de reconhecer a multipolarização em curso e formatar sua grande estratégia, ao focarem prioritariamente em elementos táticos e operacionais de cunho militar (CEPIK; MARTINS, 2014), o fortalecimento do eixo Sul-Sul e o processo de multipolarização têm evoluído em diversas esferas (PAUTASSO, 2011a). E só pode ser entendido à luz do renascimento da Ásia e da ascensão chinesa.

 

Referências

ARRIGHI, Giovanni. Adam Smith em Pequim. São Paulo: Boitempo, 2008.

BRESSER PEREIRA, Luiz. A crise financeira global e depois. In: Novos Estudos. n° 86, março, 2010, pp. 51-72.

CEPIK, Marco; MARTINS, José. Defesa Nacional Antimíssil dos EUA. In: ARTURI, Carlos (Org.). Políticas de Defesa, Inteligência e Segurança. Porto Alegre: UFRGS/CEGOV, 2014, pp. 14-47.

CUNHA, André. A Crise Financeira Global e as reformas na arquitetura financeira internacional. In: Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 34, n. 2, 2013, pp. 349-382.

GALLAGHER, Kevin; IRWIN, Amos; KOLESKI, Katherine. Novos bancos em cena: financiamentos chineses na América Latina. In: Informe: Diálogo Interamericano, maio, 2013.

HOBSBAWN, Eric. Era dos Extremos. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

OLIVEIRA; Henrique; LEITE, Alexandre. Chinese engagement for Global Governance: aiming for a better room at the table? In: Revista Brasileira de Política Internacional. 57, 2014, pp. 265-86.

PAUTASSO, Diego. O fortalecimento das relações Sul-Sul: estratégia e realidade para os países emergentes. In: Conjuntura Austral, vol. 2, 2011, pp. 48-62.

______. A geografia do desenvolvimento da Ásia-Pacífico: as particularidades do caso chinês. In: Boletim Gaúcho de Geografia, v. 34, 2009, pp. 37-56.

RAMOS, Leonardo; VADELL, Javier; SAGGIORO, Ana; FERNANDES, Márcia. A Governança econômica global e os desafios do G-20 pós-crise financeira: análise das posições de Estados Unidos, China, Alemanha e Brasil. In: Revista Brasileira Política Internacional. Brasília, vol. 55, n° 2, 2012, pp. 10-27

SANTOS, Leandro; MILAN, Marcelo. Determinantes dos Investimentos Diretos Externos Chineses: Aspectos Econômicos e Geopolíticos. In: Contexto Internacional, Rio de Janeiro, vol. 36, no 2, julho/dezembro 2014, pp. 457-486.

SCISSORS, Derek. China Global Investment Tracker. In: The Heritage Foundation. Disponível em: http://www.heritage.org/research/projects/china-global-investment-tracker-interactive-map

VADELL, Javier. Rumo ao século chinês? A relação Estados Unidos-China pós 11/09. In: Carta Internacional. vol. 6, n° 2, 2011, pp. 97-111.

[1] Doutor em Ciência Política pela UFRGS. Atualmente é professor de Relações Internacionais da Unisinos e da ESPM Sul. Publicou o livro China e Rússia no Pós-Guerra Fria, editora Juruá, 2011.

[2] Ver artigo publicado no site da Council on Foreign Relations disponível em: http://www.cfr.org/china/zhou-xiaochuans-statement-reforming-international-monetary-system/p18916

[3] Ver nota publicada pela embaixada chinesa no Brasil “Premiê chinês pede que EUA aprovem reforma de cotas do FMI” de 31/03/2015, disponível em: http://br.china-embassy.org/por/szxw/t1250761.htm

[4] Ver estudo detalhado disponível em: http://www.heritage.org/research/projects/china-global-investment-tracker-interactive-map.

[5] Ver notícia da CRI, disponível em: http://portuguese.cri.cn/1721/2014/07/08/1s186445.htm.

[6] Ver documento da 6ª Cúpula dos BRICS disponível em: http://brics6.itamaraty.gov.br/pt_br/categoria-portugues/20-documentos/224-vi-cupula-declaracao-e-plano-de-acao-de-fortaleza.

[7] Ver notícia da Sputnik News “Russia Launches Own ‘SWIFT’ Service, Links Up 91 Credit Institutions”, disponível em: http://sputniknews.com/business/20150213/1018240631.html#ixzz3WkV2l2gm

[8] Ver estimative da PWC em seu relatório disponível em: http://www.pwc.com/gx/en/issues/the-economy/assets/world-in-2050-february-2015.pdf.

[9] Ver notícia do China File disponível em: http://www.chinafile.com/reporting-opinion/caixin-media/new-fund-china-hits-silk-road-stride

[10] Ver a íntegra do documento disponibilizado pela National Development and Reform Commission do governo chinês, disponível em: http://en.ndrc.gov.cn/newsrelease/201503/t20150330_669367.html.

[11] Ver informações do site official do AIIB disponível em: http://www.aiibank.org/yatouhang_04.html

[12] Ver notícia na RT disponível em: http://actualidad.rt.com/economia/171466-poder-economico-china-desvalorizar-dolar

[13] Ver informação no site da CIA disponível em https://www.cia.gov/library/publications/the-world-factbook/rankorder/2188rank.html

[14] Ver informação publicada por The Economist disponível em http://www.economist.com/blogs/graphicdetail/2014/06/daily-chart-23

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