A Índia na Política Externa Russa Contemporânea

por Daniela Vieira Secches[1]

A Rússia é bastante conhecida por seu símbolo – o urso. Diz-se que o urso russo repousa com a cabeça sobre a Europa, enquanto seu corpo descansa ao longo do continente asiático, ocupando aproximadamente um décimo da superfície terrestre ao todo. Essa simples metáfora é bastante ilustrativa quando se pensa sobre as relações de política externa mantidas pelo país. Refletir sobre os dilemas do ente estatal na definição de sua auto compreensão torna-se central, portanto, para entender como ele se relaciona com os demais.  Nesse sentido, percebe-se a Rússia como um Estado cuja definição ao longo dos séculos passou pela contraposição tanto em relação ao outro Europeu e Ocidental bem como por  buscar definir o lugar do seu imenso corpo repousado sobre a Ásia e o Oriente.

“Os tempos mudaram, mas não a amizade.

Narendra Modi, Primeiro-Ministro Indiano, na 14ª Cúpula Rússia-Índia

 A Rússia é bastante conhecida por seu símbolo – o urso. Diz-se que o urso russo repousa com a cabeça sobre a Europa, enquanto seu corpo descansa ao longo do continente asiático, ocupando aproximadamente um décimo da superfície terrestre ao todo. Essa simples metáfora é bastante ilustrativa quando se pensa sobre as relações de política externa mantidas pelo país. Refletir sobre os dilemas do ente estatal na definição de sua auto compreensão torna-se central, portanto, para entender como ele se relaciona com os demais.  Nesse sentido, percebe-se a Rússia como um Estado cuja definição ao longo dos séculos passou pela contraposição tanto em relação ao outro Europeu e Ocidental bem como por  buscar definir o lugar do seu imenso corpo repousado sobre a Ásia e o Oriente.

 O dilema acerca da orientação do urso russo historicamente sobrepõe-se no seu trato com os Estados ocidentais e orientais. Por um lado, em um paradigma mais ocidentalista, há momentos em que o Kremlin distancia-se de parceiros asiáticos com vistas a mais profundamente se integrar enquanto parte do Ocidente.[2] Por outro, a busca por alternativas ao seu alter ocidental termina com uma aproximação em relação a parceiros estratégicos na Ásia.[3] Ademais, há ainda os defensores de uma via eslavófila exclusiva, que envolveria o enaltecimento da unicidade russa e um consequente afastamento de ambas as dimensões ocidentais e orientais.[4]

 As relações entre Rússia e Índia historicamente respondem a esse padrão de sobreposição de forças identitárias na construção do Estado russo, refletindo o longo processo de construção da amizade à qual Modi referiu-se na última semana. Até o século XVIII, a manutenção de relações externas pela comunidade política russa era errática, e a prática de envio e recebimento de representantes diplomáticos não era contínua. A partir do reinado de Pedro, o Grande, observa-se o crescimento de um esforço sistemático para a inserção internacional do Estado, focado, em especial, em uma europeização dos padrões políticos. O fim do império e a Revolução Russa no início do século XX abriram caminho para o predomínio de visões antiocidentais, e para a instituição de um olhar mais atento ao espaço oriental.

 Durante os anos da Guerra Fria, Rússia e Índia, após sua independência em 1947, consolidaram uma forte e próxima amizade, traduzida nos circuitos políticos como uma “Hindustan-Russia bhai bhai”, termo hindu utilizado para um irmão mais velho referir-se a um irmão mais novo, de forma constrangedora para o caçula. Nesse sentido, a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas era entendida como uma espécie de protetora da jovem república indiana. Isso levou a uma proximidade retórica e imagética que não se traduziu de forma direta em ações pragmáticas. [5]

 Atribuir pragmatismo a essa amizade ancestral parece ser tarefa abraçada pela atual gestão de Vladimir Putin, presidente da Rússia. Desde sua chegada ao poder, em 2000, buscou-se estabelecer laços mais fortes com a Índia, em uma declarada estratégia de diversificação de parcerias fundada no desejo de consolidar uma ordem mundial multilateralizada na qual a Rússia tornar-se-ia capaz de acumular mais excedentes de poder no pós-Guerra Fria. A política externa russa no novo milênio procura, assim, reformar as diretrizes adotadas por Boris Ieltsin, quando governou o país na década de 1990 por meio de uma abertura muito mais irrestrita à influência ocidental.

 Desde 2000, quando os Estados firmaram acordo para parceria estratégica, realiza-se anualmente um encontro de cúpula entre o presidente russo e o primeiro-ministro indiano. Em dezembro de 2014, a reunião entre Vladimir Putin e Narendra Modi, ocorrida em Nova Délhi, chamou especialmente a atenção. Na oportunidade, celebrou-se acordos nas áreas militar, energética, e comercial, além da promoção da cooperação em saúde e em educação. O quadro abaixo (Tabela I) resume as principais iniciativas da 14ª Cúpula Índia-Rússia.

 Tabela I. Principais iniciativas da 14ª Cúpula Índia-Rússia.

Área Iniciativa Possíveis desdobramentos
Insumos militares Aumento da importação indiana de armamentos russos. Cooperação técnica e militar para a construção de uma fábrica de borracha isobutileno, de uma fábrica de helicópteros e de uma cidade-base (smart city) na Índia para transferência de tecnologia russa.
Incentivos à entrada do superjato russo Sukhoi-100, da aeronave russa MS-21, e do sistema russo de navegação por satélite GLONASS.
Energia Instalação russa de dez plantas nucleares na Índia, além da já existente ao sul indiano, em Kudankulam.[6] Expansão para vinte cinco plantas nucleares instaladas pela Rússia na Índia.
Aumento da importação  indiana de gás natural liquefeito russo.[7] Cooperação para a construção de gasodutos.[8]
Cooperação para a exploração de petróleo no Ártico e na Sibéria Oriental. Cooperação para infraestrutura no Ártico e na Sibéria Oriental.
Comercial Aumento do comércio bilateral para USD$ 20.000 milhões em 2015.[9] Possibilidade de contratos firmados em moeda nacional.
Interesse indiano em fazer parte da união aduaneira entre Rússia, Bielorrússia, e Cazaquistão.
Participação mais ativa de capital russo no Programa  Make in India.[10]
Isenção de taxas aduaneiras para o comércio de diamantes russos à Índia. [11]
Condenação indiana das sanções econômicas ocidentais à Rússia. Abertura do mercado russo a empresas indianas.

 Afirma-se que a falta de pragmatismo das relações bilaterais entre Rússia e Índia deriva do pequeno envolvimento da iniciativa privada para essa aproximação.[12] Nesse ponto, o encontro entre os mandatários dos dois países em 2014 parece também especial. Na oportunidade, houve intensa interação entre o capital russo e indiano, em alguma medida aproveitando o vácuo deixado pelo enfraquecimento da presença de empresas ocidentais presentes na Rússia diante da crise na Ucrânia e as consequentes sanções. Kirill Dmitriev, do Fundo Russo de Investimento Direto, afirmou que a cúpula promoveu acordos com empresas indianas em montantes que superam USD$ 1.000 milhões.[13] Como exemplo, a empresa indiana Tata Power pretende ampliar seus negócios na Rússia, onde já possui produção de veículos.

 A despeito dos acordos de fato firmados nesse momento e da aproximação dos Estados em iniciativas multilaterais como os BRICS, a cimeira destaca-se pelo seu simbolismo no contexto de uma Rússia que busca superar os efeitos das sanções promovidas pela crise na Ucrânia e sofre profundamente com a desvalorização do preço do petróleo e de sua moeda – o rublo. As oportunidades então surgidas com o parceiro indiano, como alternativa ao cenário desfavorável, consolidam o olhar oriental da política externa russa contemporânea.

 Apenas no ano de 2014, a presidência russa participou da criação do Banco dos BRICS, firmou importantes acordos com a China e outros atores asiáticos, além de fazer dois giros pela Ásia durante os encontros da Cooperação Econômica Ásia-Pacífico (APEC), na China, e do G20, na Austrália. Em seu recente discurso anual no Parlamento, Vladimir Putin deixa transparecer, como sua principal estratégia diante de um Ocidente por ele considerado como em crise, a busca pela aproximação da Rússia rumo a parceiros não-Ocidentais.[14] Inegavelmente, as relações bilaterais com a Índia incluem-se nesse caminho, e a tendência é de expansão. No entanto, os movimentos do urso russo em direção à China e ao Paquistão, bem como a dependência indiana de parceiros ocidentais, podem ser indícios de que essa via não é tão simples como a 14ª Cimeira Rússia-Índia pretendeu demonstrar.

 [1] Membro do Grupo de Pesquisa sobre Potências Médias (GPPM). Coordenadora e professora da graduação em Relações Internacionais do Centro Universitário UniBH. Doutoranda em Relações Internacionais pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas).

[2] NEUMANN, I. Russia and the Idea of Europe. Londres: Routledge,1996.

[3] TSYGANKOV, A. Russia’s Foreign Policy: change and continuity in national identity. Lahham: Rowman & Littlefield Publishers, 2010.

[4] KUCHINS, A.; ZEVELEV, I. Russia Contested National Identity and Foreign Policy. In: NAU, H.; OLLAPALY, D. (Ed.). World views of aspiring powers: domestic foreign policy debates in China, India, Iran, Japan, and Russia. Oxford: Oxford University Press, 2012.

[5] TSAN, K. Re-Energizing the Indian-Russian Relationship: Opportunities and Challenges

for the 21st Century. Jindal Journal of International Affairs, Vol. 2, N. 1, 2012.

 [6] Primeira planta nuclear com tecnologia que atende aos requisitos pós-Fukushima. Ver RT. Putin: Nuclear projects core of cooperation between Russia and India. Disponível em <http://rt.com/business/213411-going-nuclear-russia-india/&gt;. Acesso em 18 de dezembro de 2014.

[7] A Índia possui um grande gargalo energético para seu desenvolvimento, pois não dispõe de fontes abundantes de energia. Atualmente, ela é altamente dependente da importação de gás natural liquefeito do Qatar, opção mais barata do que a russa. Ver STOBDAN, P. India-Russia Strategic Partnership. Nova Délhi: Institute for Defence Studies and Analyses, 2010.

[8] Apesar de já em andamento a cooperação entre Rússia e China para a construção de um gasoduto, a passagem do mesmo pela Índia requer mais profundas negociações. Além de economicamente custosa, a mesma levantaria questões políticas, em especial sobre as relações indo-chinesas e com os Estados Unidos. Ver SPUTNIK NEWS. India seeks giant gas deal with Russia in Chinas footsteps. Disponível em < http://sputniknews.com/voiceofrussia/2014_06_25/India-seeks-giant-gas-deal-with-Russia-in-Chinas-footsteps-7756/&gt;. Acesso em 18 de dezembro de 2014.

[9] Isso significaria dobrar o fluxo comercial bilateral entre os dois Estados em relação à 2013. FEDERAL STATE STATISTICS SERVICE (ROSTAT). External Economic Activities. Disponível em < http://www.gks.ru/wps/wcm/connect/rosstat_main/rosstat/en/figures/activities/&gt;. Acesso em 18 de dezembro de 2014.

[10] Programa instituído pelo Primeiro-Ministro indiano Narendra Modi, em 2014, seu primeiro ano de governo, com vistas a atrair investimentos em produção no solo indiano. A iniciativa corresponde à plataforma do candidato de promoção da industrialização da Índia. Ver MAKE IN INDIA. Site oficial. Disponível em <http://www.makeinindia.gov.in&gt;. Acesso em 18 de dezembro de 2014.

[11] A Rússia produz um quarto dos diamantes brutos que chegam ao mercado. No entanto, 80% dos diamantes que chegam polidos ao mercado indiano de joias vêm de outras origens. A expectativa é de que os acordos levem a um fluxo mais direto da pedra preciosa. Ver RUSSIA BEYOND THE HEADLINES. India y Russia ponen energia nuclear y más defensa para triplicar su comercio. Disponível em <http://es.rbth.com/noticias/2014/12/11/india_y_rusia_ponen_energia_nuclear_y_mas_defensa_para_triplicar_su__45783.html&gt;. Acesso em 18 de dezembro de 2014.

[12] TSAN, K. Re-Energizing the Indian-Russian Relationship: Opportunities and Challenges

for the 21st Century. Jindal Journal of International Affairs, Vol. 2, N. 1, 2012.

[13] RUSSIA BEYOND THE HEADLINES. Las sanciones espolean el interés por Rusia en la India. Disponível em <http://es.rbth.com/noticias/2014/12/10/las_sanciones_espolean_el_interes_por_rusia_en_la_india_45747.html&gt;. Acesso em 18 de dezembro de 2014.

[14] TSVETKOV, I. Putin’s great experiment. Russia Beyond the Headlines, disponível em < http://rbth.com/opinion/2014/12/17/putins_grand_experiment_42329.html&gt;. Acesso em 18 de dezembro de 2014. O discurso anual de Vladimir Putin no Parlamento está disponível em PRESIDÊNCIA DA RÚSSIA. Presidential Address  to the Federal Assembly. Disponível em <http://eng.kremlin.ru/news/23341&gt;. Acesso em 18 de dezembro de 2014.

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Um comentário sobre “A Índia na Política Externa Russa Contemporânea

  1. A Rússia sempre foi um país complicado tratando-se de soberania internacional.
    Todavia, não há como negar a globalização e desenvolvimento dos outros Estados e tal fenômeno fez com que o país, mesmo que ainda tímido, começa a se inserir nesse cenário internacional.
    Assim, a Rússia vem entrando, por meio de investimentos bilionários, no cenário econômico internacional.

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