ISIL e Turquia, uma análise preliminar

por Waldeir Eustáquio dos Santos*

O mundo vem acompanhando, com mais intensidade, desde meados de junho/2014 os conflitos que ocorrem na tríplice fronteira (Turquia, Síria e Iraque), promovidos pelo grupo que se autodenomina Estado Islâmico no Iraque e Levante (ISIL – sigla em inglês). O nome do grupo ainda gera controvérsia, mas não será objeto de análise desse texto. O interesse aqui será levantar alguns pontos em relação à situação local e a posição da Turquia diante desse episódio. Três aspectos são relevantes para esta análise. O primeiro é a relação entre o Governo Turco e os Curdos. O segundo a questão do financiamento do grupo e por fim, o terceiro ponto a ser debatido será a relevância da Turquia no processo.

O mundo vem acompanhando, com mais intensidade, desde meados de junho/2014 os conflitos que ocorrem na tríplice fronteira (Turquia, Síria e Iraque), promovidos pelo grupo que se autodenomina Estado Islâmico no Iraque e Levante (ISIL – sigla em inglês). O nome do grupo ainda gera controvérsia, mas não será objeto de análise desse texto. O interesse aqui será levantar alguns pontos em relação à situação local e a posição da Turquia diante desse episódio. Três aspectos são relevantes para esta análise. O primeiro é a relação entre o Governo Turco e os Curdos. O segundo a questão do financiamento do grupo e por fim, o terceiro ponto a ser debatido será a relevância da Turquia no processo.

O ISIL (fruto de uma cisão na al-Qaeda) surgiu ha mais de 10 anos no Iraque, contudo, se tornou relevante dentro da Síria. Ou seja, sua força foi consequência de dois Estados com problemas de organização interna. O grupo pode ser visto ainda como fruto da situação internacional vivida no pós-2001. Não é objetivo aqui encontrar culpados, mas em um ambiente internacional (globalizado) e interdependente os Estados são responsáveis pela gestão da crise de forma organizada e conjunta. A Turquia, por exemplo, não pode se omitir, pois suas fronteiras estão ameaçadas. Enfim, o problema não pode ser apenas do Iraque ou da Síria.

O grupo se autodenomina Estado Islâmico, pois, pretende ter um caráter estatal e legitimidade de atuação. Seus membros desejam justamente representar o Islã. Calcula-se que hoje tenham mais de 30.000 (trinta mil integrantes). Os integrantes defendem a criação do Grande Estado Islâmico, para isso acreditam na necessidade do fim das fronteiras, extinção dos Estados Nacionais e a completa adesão à Sharia, a lei islâmica. Por isso, o grupo deve ser visto com preocupação, não apenas no Oriente Médio, mas em todo o ambiente internacional. Assim como outros grupos radicais, esse novo movimento pode aumentar seu raio de ação.

Fontes iraquianas ligadas ao ramo de exploração do petróleo e ao governo acreditam que o ISIL fez fortuna com os lucros da venda ilegal de petróleo cru. De acordo com dados da Agência Reuters, a refinaria (que foi fechada) localizada na Cidade de Baiji chegou a produzir cerca de 175.000 barris por dia (REUTERS, 2014). O fechamento dessa refinaria significou grande passo do Governo Iraquiano na luta contra os terroristas. Contudo, esse fato não foi suficiente para a extinção do grupo. Fato esse que exigirá das autoridades locais, mais que forca militar, talvez a superação de conflitos históricos, como o que envolve turcos e curdos.

O imbróglio envolvendo turcos e curdos é secular[1]. (MCDOWALL, 2007) (DRIVER 2011). O ISIL tem suas forças concentradas na fronteira entre Iraque, Turquia e parte da Síria, região onde residem os Curdos. A questão que dificulta o posicionamento do governo turco é o fato de que a luta contra o Estado Islâmico pode fortalecer o movimento separatista curdo.  Dois partidos estão à frente da luta curda contra o ISIL, o PYD (Partido da União Democrática) e o PKK (Partido dos Trabalhadores do Curdistão). Sendo que o segundo declaradamente inimigo da Turquia e trava com o país uma luta ha mais de trinta anos. O tamanho do problema pode ser mensurado quando o Presidente Erdoğan afirma em matéria veiculada pelo Today Zaman (2014a) que entre o PKK e ISIL não há diferença.

Contudo, torna-se necessário que a Turquia avalie sua vizinhança com os Curdos atualmente e como seria ter suas fronteiras com o ISIL. Os curdos são atualmente uma das maiores nações sem Estado no globo. Os curdos organizaram a resistência e defendem seu território, principalmente a cidade de Cizire, local de importante extração de petróleo controlada pelo PYD. Esse fato fez com que a cidade de Kobani, até então, não muito relevante do ponto de vista estratégico, se tornasse o centro das atenções nos últimos meses. Pois, atravessando Kobani a entrada em Cizire se torna mais simples. O Governo turco teme que uma vitória dos Curdos sobre o ISIL possa desencadear em uma nova frente de luta pela autonomia do Curdistão. Em virtude disso, o Governo Turco tem sido acusado de negligência ou de recusa em auxiliar as forças que lutam contra o ISIL, composta por curdos e soldados estadunidenses que foram enviados para o local.

Outro ponto de questionamento ao governo turco está ligado ao financiamento do ISIL. A Turquia seria um dos compradores de óleo cru, extraídos pelo ISIL? A dúvida surgiu também em virtude da possível ação do grupo terrorista para derrubar o Presidente Sírio Bashar al-Assad, fato que seria interessante para o Governo de Ankara. Ankara, evidentemente nega essa informação. Conforme veiculado pela Al Jazeera (2014) e pela Reuters (2014), o ISIL dominava rentáveis áreas de extração de Petróleo no Iraque e vendia o óleo cru a baixo preço no mercado ilegal. O grupo possui outras formas de financiamento como extorsões, resgates e crimes diversos. A imprensa turca e internacional questionavam a permissividade do governo em relação ao recrutamento de jovens turcos nas periferias. O fato de combatentes feridos do ISIL serem tratados em hospitais turcos, também não era bem visto. Apesar da Turquia fazer parte do Pacto de Resistência ao grupo terrorista, sua política externa foi questionada.

Mas, o governo de Erdoğan entendeu o perigo, a existência do ISIL não traz benefícios para a Turquia. Apesar da resistência em atuar ao lado de alguns grupos Curdos, o Governo de Ankara sabe que há mais facilidade em negociar com os Curdos. Apesar dos “possíveis” interesses, a manutenção do Grupo Terrorista pode ser problemática tanto para a Turquia, quanto para os demais países do globo.

A estratégia utilizada pelo Governo Iraquiano e Estados Unidos para conter o crescimento do ISIL seria retirar os campos de petróleo do controle terrorista. Para isso, mais uma vez, o apoio turco seria essencial. Entre Outubro e Novembro/2014 a Turquia permitiu o uso de seu território para a passagem das tropas aliadas, principalmente para chegar a Kobani e impedir o avanço dos fundamentalistas do ISIL sem, contudo, prestar apoio mais efetivo na campanha. Ankara se defendeu dos ataques, argumentando que não podia naquele momento provocar o ISIL, pois, sob o poder deles ainda estavam alguns turcos, assim um ataque poderia ser prejudicial para a vida desses reféns.

Além disso, as fontes de lucro do grupo estão sendo atacadas. O Governo de Bagdá vem solicitando apoio para lutar contra o ISIL desde o final de 2011. Recentemente a Turquia cedeu espaço para realização de treinamento de sunitas moderados que se preparam para o combate aos terroristas. Em encontro promovido pela OTAN em Bruxelas, no dia 03 de Dezembro, foi deliberado a realização de encontros semestrais para avaliar a campanha contra o grupo. (TODAY’S ZAMAN, 2014c). A coalizão global criada deseja intensificar a luta contra o ISIL. Contudo, avaliam os participantes, a luta ainda é grande. Há muito que fazer. Turquia e Estados Unidos estão perto de um acordo que permitirá a utilização da Base Aérea de Incirlik, em solo turco, para que a coalizão possa realizar suas operações. Após a visita de Joe Biden à Erdoğan e Ahmet Davutoğlu, respectivamente Presidente e Primeiro Ministro, acredita-se em uma forte aliança dos dois países. Revivendo os tempos da aliança na Guerra Fria.

Considerações Finais

A Turquia deseja há muito uma situação de liderança na Região do Oriente Médio. Conforme avaliação de Yalvuç (2012). Dentro da perspectiva de uma Potência Média Emergente, o momento de atuar como um player regional seria agora. Contudo, vários problemas tiram da Turquia a função de articulador da campanha contra ISIL. O país vive um momento conturbado em sua política doméstica. Desde 2010 o governo do AKP (Partido da Justiça e Desenvolvimento) vem sendo acusado de corrupção. O Presidente Recep Tayyip Erdoğan construiu um castelo em Ankara e restaurou outro em Istambul. O Palácio em Ankara, conhecido por Palácio Branco ostenta mil quartos, o que provocou revolta na população turca. Principalmente em virtude das desigualdades sociais e falta de investimentos em setores importantes como a mineração. Na cena internacional a questão do Chipre ressurge devido à exploração de gás e petróleo no Mar Mediterrâneo. A questão Curda brevemente mencionada nesse texto aguarda solução, ou minimamente negociações mais claras. Um fato positivo em meio a tudo isso é que o país assumiu a presidência do G20 agora em Dezembro. Fato que permite ao Governo tirar o foco das crises mesmo que por pouco tempo e no próximo ano a Turquia sediará a Cúpula do G20. Enfim, a Turquia atravessa uma turbulência doméstica e regional, o que a impede de atuar proativamente no caso do combate ao ISIL. Mas continua sendo um país relevante na Política Global e pode contribuir para a diplomacia no Oriente Médio.

Referências

ALJAZEERA. Iraqi army claims control of Beiji refinery. In꞉ http://www.aljazeera.com/news/middleeast/2014/11/iraqi-army-retakes-control-beiji-refinery-20141118131723424952.html. Acesso em 04/12/14.

AGÊNCIA DE NOTÍCIAS REUTERS. Iraqi security forces enter Baiji refinery – state TV. In꞉ http://uk.reuters.com/article/2014/11/18/uk-iraq-refinery-idUKKCN0J20L220141118. Acesso em 25/11/2014.

DAVUTOĞLU, Ahmet. A política externa da Turquia em um ambiente internacional de rápida evolução. Revista Política Externa. Vol. 20, n° 04, mar/abr/mai 2012.

DRIVER. G.R. The dispersion of the Kurds in Ancient Times.  Journal of the Royal Asiatic Society, Volume 53, Issue 04, pp 563 – 572, March 2011.

HARRIS, George S. Troubled Alliance Turkish-american problems in historical perspective, 1945-1971. California꞉ Hoover policy studies, 1972.

JORDAAN, Eduard. The concept of a middle power in international relations: distinguishing between emerging and traditional middle powers. Revista Politikon, London, 30 (02), p. 165 – 181, nov. 2003.

MCDOWALL, David. A modern history of the Kurds. London/New York: Ed. I.B. Tauris, 2007.

HURRIYET DAILY NEWS. Both AKP and PKK unhappy with Turkish govt’s Kurdish dialogue. In꞉ http://www.hurriyetdailynews.com/both-akp-and-pkk-unhappy-with-turkish-govts-kurdish-dialogue.aspx?pageID=449&nID=74081&NewsCatID=409. Acesso em 03/12/2014.

TODAY’S ZAMAN. ISIL and Turkey’s strategic identity.  In꞉ http://www.todayszaman.com/newsDetail.action;jsessionid=WDL43aGw1XAFPNQWChF+hHR3?newsId=358997&columnistId=0. Acesso em 03/12/2014a.

TODAY’S ZAMAN. ISIS and the Kurdish question. In꞉http://www.todayszaman.com/newsDetail.action;jsessionid=WDL43aGw1XAFPNQWChF+hHR3?newsId=356362&columnistId=0. Acesso em 04/12/2014b.

TODAY’S ZAMAN. Global coalition stepping up against ISIL. In꞉http://www.todayszaman.com/newsDetail.action;jsessionid=WDL43aGw1XAFPNQWChF+hHR3?newsId=366062&columnistId=0. Acesso em 04/12/2014c.

YALVAÇ, Faruk. Strategic Depth or Hegemonic Depth? A Critical Realist Analysis of Turkey’s Position in the World System. Revista International Relations. Vol. 26, n° 02, p. 165-180. Junho/2012.

* Doutorando em Relações Internacionais/PUC MINAS, membro do Grupo de Pesquisa Potências Médias.

[1] The dispersion of the Kurds in Ancient Times – G.R. Driver (artigo), e A modern history of the Kurds – David McDowall (livro).

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Um comentário sobre “ISIL e Turquia, uma análise preliminar

  1. A questão do Estado Islâmico vem sendo vista com bastante atenção atualmente no cenário mundial.
    A pouco mais de um mês foi noticiado a adesão do movimento por ingleses, franceses e espanhoes, sendo assim a questão cada vez mais passa a ser um problema de esfera mundial, devendo ser muito bem discutido para assim chegar a uma solução rápida e o mais possível pacifica.

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