O B20 na Cúpula de Brisbane 2014

por Pedro Parreiras

Conjuntamente com a cúpula do G20, que reúne os líderes das principais economias do mundo[1], ocorre o encontro do Business 20 (ou simplesmente B20) que agrupa representantes do setor corporativo dos países do G20. Empresas como Shell, Microsoft, e Commonwealth Bank estão representadas por seus diretores nestes encontros. Em 2014, por volta de 400 diretores de grandes corporações estiveram envolvidos nas atividades do B20. Como acontece com o G20, as atividades do B20 não se resumem à cúpula e ao encontro com os líderes do G20, existindo uma série de atividades realizadas por diferentes grupos de trabalho que emitem seus relatórios ao longo do ano. Na cúpula deste ano em Brisbane, Austrália, não foi diferente, sendo que em julho o B20 já havia tornado público os seus relatórios nos quais faz uma série de recomendações ao G20[2].

            Conjuntamente com a cúpula do G20, que reúne os líderes das principais economias do mundo[1], ocorre o encontro do Business 20 (ou simplesmente B20) que agrupa representantes do setor corporativo dos países do G20. Empresas como Shell, Microsoft, e Commonwealth Bank estão representadas por seus diretores nestes encontros. Em 2014, por volta de 400 diretores de grandes corporações estiveram envolvidos nas atividades do B20. Como acontece com o G20, as atividades do B20 não se resumem à cúpula e ao encontro com os líderes do G20, existindo uma série de atividades realizadas por diferentes grupos de trabalho que emitem seus relatórios ao longo do ano. Na cúpula deste ano em Brisbane, Austrália, não foi diferente, sendo que em julho o B20 já havia tornado público os seus relatórios nos quais faz uma série de recomendações ao G20[2].

            Em 2014 as recomendações do B20 concentraram-se me 4 áreas: flexibilidade estrutural, movimento livre através das fronteiras, regulação efetiva e consistente, integridade e credibilidade no comércio. (B20, 2014d). Estas recomendações foram definidas com base nos relatórios das forças tarefas em Comércio, Infraestrutura e Investimento, Capital Humano, e Crescimento de Financiamento (Growth Financing) e Anticorrupção. De maneira geral as recomendações giraram em torno de reformas estruturais para a retomada do crescimento e consequente geração de empregos. Especificamente com relação à flexibilidade estrutural, as recomendações fizeram menção ao investimento privado em infraestrutura; à implementação do Acordo Sobre a Facilitação do Comércio (ou Pacote de Bali); à cadeia de distribuição de commodities; e uma série de recomendações, incluindo fomento à inovação e à flexibilidade na força de trabalho, todas com o intuito de criação de empregos. (B20, 2014d). Ainda, o B20 recomendou o estabelecimento de um Centro de Infraestrutura para facilitar o investimento em infraestrutura em escala global, ação que o G20 concordou em apoiar. (B20, 2014d; G20, 2014). Com relação ao movimento livre através das fronteiras o B20 recomendou aos líderes do Grupo dos Vinte a redução das medidas protecionistas, principalmente as não-tarifárias; acordos preferencias de comércio mais transparentes; e promoção e proteção do fluxo de capitais através das fronteiras. (B20, 2014d).

            Já com relação à regulação efetiva e consistente foram feitas as seguintes recomendações: finalizar as reformas financeiras em 2014 e garantir maior participação do setor privado nas reformas posteriores; representação adequada das economias emergentes na governança financeira; revisão de determinadas regras impostas ao mercado financeiro com relação ao combate ao financiamento de grupos terroristas para evitar que tais regras provoquem excessiva exclusão financeira; promover investimentos de longo prazo através da eliminação de regulações desnecessárias do mercado. (B20, 2014d). Por fim o B20 fez as seguintes recomendações na área de integridade e credibilidade no comércio: harmonizar as leis de anticorrupção; fomentar medidas no âmbito nacional e internacional para o combate ao suborno e corrupção; e endossar os princípios de transparência para propriedade e controle de companhias propostos pelo G8. (B20, 2014d).

            Acerca das recomendações do B20 ao G20 são válidas duas observações. Primeiro, o tom assertivo que marcou algumas das recomendações. Nas mensagens chave de julho, alguns pontos são interessantes. No primeiro ponto o B20 afirma que o sistema financeiro global está estabilizado, sendo que agora a principal preocupação é o crescimento e a geração de empregos, concluindo que para o alcance de tais metas “[…] (n)ão há espaço para a complacência.” (B20, 2014e). Mais a frente outra afirmação chama a atenção: “O G20 é o único fórum capaz de alcançar a ação coordenada necessária para dirigir e moldar a economia global”. (B20, 2014e, grifo meu). Por fim, o B20 transforma as suas recomendações na fórmula perfeita para a retomada do crescimento: “Se os países do G20 se comprometerem com estas reformas os ganhos serão amplos. Uma falha de qualquer um dos países do G20 em se comprometer significará um relevante custo de oportunidade.” (B20, 2014e). Segundo, os relatórios contendo as recomendações do B20 foram significativamente menos extensos do que os emitidos em anos anteriores (fato também observado no comunicado final do G20). É provável que este ponto esteja diretamente ligado à presidência da Austrália no G20, que procurou transformar a Cúpula de Brisbane em algo além de uma “talkfest”, preocupando-se mais com ações concretas. (KIRTON, 2014).

            A cúpula de Brisbane também merece destaque pela sintonia entre o B20 e o G20. Como já exposto por Ramos (2013), as declarações do B20 e do G20 apresentam várias semelhanças, “[…] indicando não apenas certo êxito do B20 em pautar as discussões do G20, mas também a existência de certo consenso compartilhado por ambos os grupos.” (RAMOS, 2013, p. 315). Na cúpula de 2014 o consenso girou, fundamentalmente em torno da necessidade de reformas estruturais. Necessárias, na visão do B20, para criar um ambiente que encoraje o setor privado a investir, principalmente em infraestrutura[3]. De acordo com o B20, tais reformas seriam fundamentais para que o setor privado auxiliasse os países do G20 a alcançar a meta de crescimento de 2% acima do esperado até 2018. (B20, 2014d). Reveladora de tal alinhamento de ideias é a fala de Richard Goyder, líder do B20 na Austrália: “O comunicado final (comunicado do G20) e o grau com que ele reflete as propostas do B20 reforça nossa crença que o business e o governo compartilham pensamentos comuns acerca dos desafios econômicos e os melhores caminhos para responder a eles.” (B20, 2014b).

            Perante a atuação do B20 na cúpula do G20 em 2014 são cabíveis alguns questionamentos críticos. Podendo o B20 ser considerado um fórum que reúne parte da elite transnacional capitalista[4], e este exercendo influência cada vez mais visível na agenda do G20, mostra-se cada vez mais relevante a compreensão do impacto de tal fórum de elites para o bloco histórico neoliberal[5]. E mais, estando o B20 integrado na rede da classe capitalista transnacional[6], surge a possibilidade de pensá-lo como um nodo com a característica de aproximar a elite transatlântica (mais Japão) das elites da semiperiferia. Apesar de tais hipóteses ainda carecerem de verificação, trabalhos de autores como Leonardo Ramos (2013), Stephen Gill (2003, 1990), Kees van der Pijl (1998) e Willian Carroll (2010) nos fornecem indicativos de que atrás das cortinas do sistema G7/8 poderemos divisar parte das engrenagens da atual ordem global.

 Referências

B20. B20 takes growth, Jobs message to G20 leaders. 2014a. Disponível em: < http://www.b20australia.info/Documents/20141115_B20_G20_Sat%20Media%20Release_FINAL.pdf >. Acesso em: 18 de novembro de 2014.

B20. B20 welcomes g20 commitments to accelerate growth, create jobs. 2014b. Disponível em: < http://www.b20australia.info/Documents/20141116_B20_G20_Communique%20response_Media%20Release_FINAL.pdf >. Acesso em: 18 de novembro de 2014.

B20. Bold commitments needed to secure growth and employment outcomes. 2014c. Disponível em: < http://www.b20australia.info/Documents/20141114_B20_G20_mediarelease_FINAL.pdf >. Acesso em: 18 de novembro de 2014.

B20. Driving Growth and Jobs: B20 Policy Recommendations to the G20. 2014d. Disponível em: < http://www.b20australia.info/Documents/B20%20Summit%20Documents/Driving%20growth%20and%20jobs%20-%20B20%20policy%20recommendations%20to%20G20.pdf >. Acesso em: 18 de novembro de 2014.

B20. Drinving growth and Jobs to increase global living standards: Key messages from the B20 to the G20. 2014e. Disponível em: < http://www.b20australia.info/Documents/B20%20Summit%20Documents/B20%20Key%20Messages%20and%20Recommendations.pdf >. Acesso em: 18 de novembro de 2014.

CARROLL, Willian K. The Making of a Transnational Capitalist Class: Corporate Power in the 21st Century. Londres: Zed Books, 2010, p. 273.

COX, Robert. Gramsci, Hegemonia e Relações Internacionais: Um Ensaio Sobre o Método. Millennium, v. 12, n. 2, p. 162-175, 1983.

COX, Robert. Social Forces, States and World Orders: Beyond International Relations Theory. Millennium, v. 10, n. 2, p. 126-155, 1981.

G20. G20 Leader’s Communiqué: Brisbane Summit, 15-16 November 2014. 2014. Disponível em: < https://www.g20.org/sites/default/files/g20_resources/library/brisbane_g20_leaders_summit_communique.pdf >. Acesso em: 18 de novembro de 2014.

GILL, Stephen. American Hegemony and The Trilateral Commission. Nova Iorque: Cambridge University Press, 1990, p. 304.

GILL, Stephen. Power and Resistence in the New World Order. Nova Iorque: Palgrave Macmillan, 2003, p. 238.

KIRTON, John. Reaching out to Business and Beyond to make the Brisbane G20 Summit a Success. 2014. Disponívem em: < http://www.g20.utoronto.ca/analysis/140717-kirton-abbott.html >. Acesso em: 18 de novembro de 2014.

MORTON, Adam David. Unravelling Gramsci: Hegemony and Passive revolution in the Global Political Economy. Londres: Pluto Press, 2007, p. 254.

PIJL, Kees van der. Transnational Classes and International Relations. Londres: Routledge, p. 196.

RAMOS, Leonardo César Souza. Hegemonia, revolução passive e globalização: O sistema G7/8. 1. ed. Belo Horizonte: PUC Minas, 2013a. v. 1. 384p.

[1] Só a partir de 2008 que o G20 se constituiu como uma cúpula de líderes. Para uma evolução do sistema G7/8 ver Ramos (2013).

[2] Todos os relatórios e comunicados do B20 podem ser encontrados em seu site oficial: < http://www.b20australia.info/ >.

[3] O consenso pode ser percebido nas recomendações do B20 (2014d, 2014e), nos comunicados à imprensa (2014a, 2014b, 2014c) e na própria declaração final do G20 (2014).

[4] Para a noção de uma elite capitalista transnacional ver Gill (1990), Pijl (1998) e Carroll (2010).

[5] Para a noção de um bloco histórico (gramsciano) e sua aplicabilidade para a ordem mundial ver Cox (1981, 1983), Morton (2007) e Ramos (2013).

[6] Para a noção de uma análise de redes sociais aplicadas à elite capitalista transnacional ver Carroll (2010).

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Um comentário sobre “O B20 na Cúpula de Brisbane 2014

  1. A economia mundial, cada dia mais globalizada, sendo assim interligada, necessita de um trabalho conjunto entre governos, e suas políticas de incentivo ao crescimento, e grandes empresários.
    Os interesses são mútuos, claro que cada um com seus pontos que consideram mais importantes e relevantes, então deve haver um balanço entre os dois.

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