A China precisa manter um equilíbrio cauteloso em relação ao Banco de Desenvolvimento do BRICS

Especial – VI Cúpula do BRICS – 14,15 e 16 de julho de 2014

por Adriana Erthal Abdenur

Na próxima semana, a sexta cúpula de chefes de Estado do BRICS acontecerá em Fortaleza, Brasil. Com a aproximação do encontro, novas perguntas estão sendo feitas sobre a capacidade do grupo de avançar a reforma da governança global. O assunto principal da agenda serão as discussões acerca do Banco de Desenvolvimento do BRICS, a ser lançado em breve. Desde a reunião do ano passado em Durban, África do Sul, a conjuntura global mudou de maneira significativa, com as potências emergentes desempenhando papéis-chave em algumas das principais mudanças arquitetônicas em curso. Primeiro, a crise iniciada na Crimeia levou a Rússia a aprofundar seus laços com os demais países do BRICS, na esperança de angariar apoio para suas posições e ações na Europa Oriental, onde disputa influência com o Ocidente. Em segundo lugar, no campo do desenvolvimento, os debates em curso sobre a agenda pós-2015, estabelecida para substituir os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, têm se intensificado em vários países e regiões, ainda que em graus diferentes. Finalmente, existem novos ou renovados pontos de instabilidade, como o Iraque, que podem afetar não apenas a geopolítica da região, onde as potências emergentes vêm acumulando maior participação, mas também, de maneira mais ampla, as relações entre as potências globais e emergentes.

Especial – VI Cúpula do BRICS – 14,15 e 16 de julho de 2014

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(*) Adriana Erthal Abdenur

 

Na próxima semana, a sexta cúpula de chefes de Estado do BRICS acontecerá em Fortaleza, Brasil. Com a aproximação do encontro, novas perguntas estão sendo feitas sobre a capacidade do grupo de avançar a reforma da governança global. O assunto principal da agenda será as discussões acerca do Banco de Desenvolvimento do BRICS, a ser lançado em breve.

Desde a reunião do ano passado em Durban, África do Sul, a conjuntura global mudou de maneira significativa, com as potências emergentes desempenhando papéis-chave em algumas das principais mudanças arquitetônicas em curso.

Primeiro, a crise iniciada na Crimeia levou a Rússia a aprofundar seus laços com os demais países do BRICS, na esperança de angariar apoio para suas posições e ações na Europa Oriental, onde disputa influência com o Ocidente.

Em segundo lugar, no campo do desenvolvimento, os debates em curso sobre a agenda pós-2015, estabelecida para substituir os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, têm se intensificado em vários países e regiões, ainda que em graus diferentes. Há uma crescente inquietude entre os stakeholders ocidentais para entender melhor os interesses e posições das potências emergentes dentro desses debates, especialmente à luz da resistência compartilhada entre os BRICS com relação ao que estes enxergam como um quadro normativo para o desenvolvimento liderado pelo Norte.

Finalmente, existem novos ou renovados pontos de instabilidade, como o Iraque, que podem afetar não apenas a geopolítica da região, onde as potências emergentes vêm acumulando maior participação, mas também, de maneira mais ampla, as relações entre as potências globais e emergentes.

Frente a esse contexto de rápidas mudanças, que soluções a cúpula do BRICS em Fortaleza poderá gerar?   Qual o grau de vontade política os cinco países irão demonstrar?

A China e o Banco de Desenvolvimento do BRICS

Ainda que a China não seja a única resposta para essas perguntas, o país desempenha um papel central entre os BRICS. No campo do desenvolvimento, o tamanho de sua economia e o alcance global de suas empresas, diplomacia e diáspora permitem que Beijing tenha considerável influência política e econômica, dentro e fora da coalizão do BRICS. A dimensão da economia chinesa poderia ofuscar os demais BRICS, dinâmica que será testada pelo lançamento do Banco de Desenvolvimento do BRICS, que, aliado ao fundo contingente de reserva, representará a primeira inovação institucional concreta promovida pelo agrupamento.

Em termos financeiros, esse investimento não passa de uma gota no oceano do gigantesco programa chinês de cooperação Sul-Sul para o desenvolvimento. Este não é o caso dos demais BRICS, que—apesar de terem desfrutado de um certo grau de crescimento econômico–enfrentam grandes constrangimentos financeiros, particularmente à luz da recente desaceleração econômica dessas economias.

Quais são, então, os interesses da China em participar da iniciativa?

Em meu artigo “A China a o Desenvolvimento Internacional: Desafios e oportunidades”, a ser publicado em breve na revista do Institute of Development Studies (IDS Bulletin), argumento que as motivações do governo chinês são principalmente políticas.

Além de ajudar a coalizão a pressionar por uma reforma mais rápida das organizações de desenvolvimento, como as instituições de Bretton Woods, o empreendimento permitirá à China lapidar ainda mais sua imagem de país multilateralista no campo do desenvolvimento e a reforçar a ideia de que a China se dispõe a trabalhar de forma solidária com outros países em desenvolvimento, em vez de agir como “lobo solitário”. Nutrir essa imagem tornou-se cada vez mais importante para o governo chinês, dada a percepção de que a China usa o bilateralismo para expandir sua cooperação Sul-Sul na Ásia, África e América Latina.

Para colher os benefícios políticos da criação do Banco, entretanto, a China precisa manter um equilíbrio cauteloso de forma a não dominar a iniciativa, uma vez que fazer isso poderia exacerbar as assimetrias que o país traz à coalizão. Um protagonismo chinês desmedido poderia deslegitimar o BRICS enquanto esforço multilateral, projetado no intuito de acelerar a transição para a configuração de um sistema internacional mais multipolar.

Uma estrutura da governança do banco equilibrada, na qual todos os cinco membros da coalizão tenham representação e oportunidade de voz igualitária, será essencial para maximizar o potencial do banco– potencial não só de enfrentar o déficit de financiamento em infraestrutura e em política industrial, mas também para transformá-lo em uma plataforma importante na elaboração normas e padrões para a cooperação ao desenvolvimento. Esta também será uma oportunidade para que os BRICS promovam sua capacidade de gerar soluções inovadoras para problemas socioeconômicos caros a todos os membros do agrupamento, tais como erradicação da pobreza, desenvolvimento sustentável e redução da desigualdade.

Notas: o texto originalmente foi publicado em inglês na página do Institute of Development Studies, em Sussex e traduzido por Maiara Folly do Instituto de Relações Internacionais da PUC: “China needs to maintain careful balance over BRICS Development Bank”  – Globalisation and Development <http://www.globalisationanddevelopment.com/2014/07/china-needs-to-maintain-careful-balance.html?spref=fb>

(*) Professora do Instituto de Relações Internacionais da PUC-Rio e pesquisadora do BRICS Policy Center.

 

 

 

 

 

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