Acordo energético Rússia-China: claves do novo bloco Eurásico

 

Xi Putin Xi Putinpor Javier Vadell

Ano passado (2013) fui entrevistado por dois experientes jornalistas chineses. Eles queriam saber minha opinião a respeito das relações China-América Latina e em relação ao futuro da cooperação entre a China e o Brasil. Pela metade da entrevista, os entrevistadores se distraem e viram entrevistados. Foram só 30 segundos, mas o suficiente para eu fazer uma pergunta a respeito do relacionamento China-Rússia. A resposta de ambos foi terminante: “ambos os países vivem seu melhor momento histórico de amizade e cooperação”.

Ano passado (2013) fui entrevistado por dois experientes jornalistas chineses. Eles queriam saber minha opinião a respeito das relações China-América Latina e em relação ao futuro da cooperação entre a China e o Brasil. Pela metade da entrevista, os entrevistadores se distraem e viram entrevistados. Foram só 30 segundos, mas o suficiente para eu fazer uma pergunta a respeito do relacionamento China-Rússia. A resposta de ambos foi terminante: “ambos os países vivem seu melhor momento histórico de amizade e cooperação”.

O recente acordo energético entre a República Popular da China (RPC) e a Rússia pode ser lido a partir dessa conjuntura política e econômica favorável, catalisada pela crise da Crimeia, mas sem perder o foco nas transformações econômicas do capitalismo global, na lógica territorial dos Estados e no papel da geopolítica da energia nesse processo. Aqui os atores principais são os Estados nacionais que, na lógica das metamorfoses do capitalismo, interagem com outros atores empresariais como bancos, grandes companhias (muitas delas produzindo na China para o mercado global) e outras forças sociais, setores e segmentos, mais ou menos organizados em diferentes escalas territoriais.

O novo tratado assinado entre a China e a Rússia, denominado de “Gas deal of the Century”, tem as seguintes características:

  • Envolve um montante aproximado de 400 bilhões de dólares
  • É um acordo de estilo ‘chinês’. Isto é, de longo prazo, com duração de 30 anos, a começar em 2018
  • A Rússia terá que fornecer anualmente 38 bcm (bilhões de metros cúbicos) de gás para a China.
  • O preço estimado pelos site oficial russo (RT) é de 350 dólares por 1000 metros cúbicos.
  • Gazpron, a empresa estatal russa, fará uma parceria com os chineses denominada “Vladivostok LGN’ de comercialização de gás liquefeito.
  • Os investidores chineses poderão participar da privatização da companhia estatal petroleira russa Rosneft.
  • A RPC obterá da Rússia, a partir desse acordo, 20% adicionais de suas crescentes necessidades anuais de gás. E, o mais importante, a preço muito mais barato que o gás liquefeito importado pela China de Qatar e da Austrália.
  • Como consequência da associação com a RPC, a Rússia desenvolverá dois campos de exploração de gás na Sibéria, perto do lago Baikal – Kovykta e Chayanda.

Em resumidas contas, o tratado Russo-Chino amarra ainda mais a sociedade estratégica entre ambos os países em matéria de segurança energética, comércio e investimentos estratégicos. A aproximação tinha começado na década de 1990 com a assinatura, junto com outros países da Ásia Central, do acordo da Organização para a Cooperação de Xangai durante os governos Boris Yeltsin e Jiang Zemin, de Rússia e China, respectivamente. Essa aliança de segurança se tornou, em 2014, um pacto de complementariedade econômica e de sociedade estratégica. A diversificação do fornecimento energético da China e a redução da dependência da via marítima foram uma variável importante para materializar essa sociedade. Os EUA têm dificultado as reivindicações chinesas no mar da China e possuem o controle das rotas marítimas que conectam o país ao comércio global.

A crise na Ucrânia e a anexação da Crimeia por parte da Rússia provocaram o acirramento do relacionamento com a União Europeia (UE) e os Estados Unidos da América (EUA), que, por sua vez, agiu como catalizador da sociedade Eurásica. A diversificação da demanda vem no momento crucial em que a complexa trama de sanções ‘soft’ que os EUA estão promovendo contra a Rússia vem sendo erodida pela dependência do gás russo por parte da Alemanha e de outros países da UE e o surgimento da RPC como um grande comprador.

Há interesses mútuos entre a Rússia e a China e o cenário é muito favorável para o fortalecimento de uma associação energética Euroasiática de longo prazo e dos entendimentos dentro do fórum BRICS, cujo maior desafio é a criação de um Banco que concorra com o FMI e o Banco Mundial. As condições estruturais também estão dadas. O papel central hoje do capitalismo chinês não pode achar momento mais adequado, após a “Crise da Ucrânia”, para diversificar suas fontes de abastecimento e baratear sua crescente dependência por gás e petróleo. Mas, isso também é funcional para as empresas que produzem na China para o mercado global, a maioria empresas de Ocidente, que vão desde a indústria de tecidos, de baixa tecnologia, a eletrônicos e alta tecnologia. O nascedouro desse novo bloco Eurásico dará um novo impulso ao capitalismo global numa nova fase de acumulação a partir do centro capitalista asiático liderado pela China.

Fontes: NYT; RT; wsws.org; Foreign Policy, Russia beyond the Headlines; rebelion.org

Javier Vadell é professor e pesquisador do Departamento de Relações Internacionais da PUC Minas, editor do periódico Estudos Internacionais e líder do Grupo e Pesquisa sobre as Potências Médias

mapa gas Rússia China                        Fonte: Gazpron

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4 comentários sobre “Acordo energético Rússia-China: claves do novo bloco Eurásico

  1. Caro Javier Vadell,
    Tomei a liberdade de reproduzir seu artigo no Observatório de Relações Internacionais da UFOP. ( http://neccint.wordpress.com/2014/05/30/javier-vadell-acordo-energetico-russia-china-claves-do-novo-bloco-eurasico/ )
    E queria aproveitar para deixar só um breve comentário. Por maior que seja o poder dos EUA, e mesmo conjugando este poder com a cumplicidade da também poderosa União Europeia, não há NADA que pudesse ser feito para impedir a Rússia e China concluíssem este acordo, E mais. Considerando a teimosia dos EUA em tentar fechar o cerco à Rússia e à China, parece provável que Rússia e China reajam aprofundando ainda mais esta aliança estratégica. E eu não vejo no horizonte nada de efetivo que possa ser feito pelos EUA para impedir este processo. Na década de 1970, Kissinger conseguiu convencer Nixon a aproveitar ao máximo uma fissura entre a Rússia e a China. Com isso, os EUA tiveram grandes ganhos geopolíticos na guerra fria e, no médio prazo, grandes ganhos econômicos para as empresas estadunidenses que assim ficaram melhor posicionadas para aproveitar as oportunidades trazidas pela abertura econômica da China. O que a política externa de Kerry e Obama faz hoje parece ser, de certa forma, o oposto. Como diria o pensador contemporâneo Metre Washington: “sabe de nada inocente!” Luiz Albuquerque

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