O Lobo e a Anarquia Financeira

O Lobo de Wall Street, dirigido por Martin Scorsese, é um filme divertidíssimo. Considerado como expressão de uma sociedade, logo se expõe como arte. Em seus termos, a arte aqui alertada, como uma composição ou um texto, supõe a construção de uma metáfora da vida. Basta? Não. Afora o senso comum, tal filme espelha, no nível do indivíduo, as estruturas da sociedade de mercado que não metaforiza a vida, mas a coordena. Outros filmes sob o mesmo tema se esforçaram para aclarar o sistema e sua lógica, não as suas motivações. Apesar de o absurdo ser usado como essência para a crítica, a película em destaque exige outras reflexões. A primeira questão a ser destacada diz respeito à ideia de sociedade de mercado. Tal termo foi trabalhado por Karl Polanyi no início do Séc. XX. Seu intuito era desvendar o caos social, político e econômico de início de século a partir das colunas estruturais da hegemonia britânica. Todavia, importa aclarar que a sociedade de mercado, identificada por Polanyi, se sustentara por meio de uma falácia na qual a relação oferta-demanda-preço fez apagar o viés substantivo da própria economia, o qual, segundo o autor citado, abarca a história humana. Em caráter arbitrário, a falácia erguida não apenas soa como um novo padrão de comportamento, mas permeia a construção de uma nova cultura social. Nessa nova cultura, a automaticidade do dito mercado determinaria, sob sua eficiência, todas as outras relações sociais. Ora, tem-se, logo, uma bizarra relação na qual o homem ergue uma estrutura que abrange o comportamento social, em um primeiro momento. Por conseguinte, essa mesma estrutura é esvaziada da condição humana para ser exaltada como apenas fluxos entre bases ofertadas e demandadas com fim último de formação do preço e nada mais.

 

Semelhante ao filme, tal sociedade é fruto das transformações sociais e econômicas de um espaço, porém expandidas para outros campos fundamentando uma espécie de modo social de produção consensual, sendo tal consenso o elo central para existência de uma hegemonia. John Agnew em Hegemony: the shape of global Power nem desenvolve as preocupações anteriores de Antonio Gramsci acerca da cultura social do Americanismo. Retomando, cabe destacar que as reinvenções e as técnicas de investimentos, que pouco são expostas durante o filme abordado, muito se distinguem dos anseios de riquezas no último quartel do Séc. XIX. Quanto ao meio/forma para produção de riqueza, em contraste ao Lobo de Wall Street, os filmes dirigidos por Oliver Stone, também sob a semântica de Wall Street, alertam para a compreensão sistêmica, enredando o indivíduo e suas contradições, todavia com um cerne estrutural no qual as alavancagens de capital tornam o ponto crítico ao invés da tríade ambição/drogas/prostitutas. Cada filmagem constrói a sua crítica e almeja o seu próprio resultado. Entretanto, o Lobo de Wall Street escrutina o homem pelo homem, e faz pouco valer os meandros do meio no qual o dinheiro cria condições últimas de expropriações, em um âmbito especulativo, a agregar uma mais-valia fictícia e a compor um capital que se materializa como em um conto de fadas.

 

Outro tracejo do filme diz respeito a uma preocupação contratualista inexistente. Nesse sentido, recuperemos Hobbes e aludamos o termo Wolf, nas finanças, como a degradação social a partir da inexistência de regras. A abstração máxima de Hobbes é potencializada por meio das finanças anárquicas nas relações internacionais e a inexistência de regras no espaço das finanças internacionais não apenas reforça uma citação, como também recupera sua preocupação central: ordem. Ordem essa que seria um fruto para a estabilidade e benefício da sociedade. Ora, a alavancagem de capital nas finanças internacionais foi, desde a reinvenção do mercado financeiro na década de 1960, um estratagema para contornar um limite ao capital face uma crise de superacumulação uma grande sacada para geração de riqueza, como também para a sua concentração. A partir dessa engenharia financeira, a falha de mercado encurtou a sua periodicidade expondo, com maior frequência, o paradoxo entre benefício e custo.

 

O Lobo, centro da anarquia, usa de meios e formas que alardeiam a preocupação hobbesiana lançada no Séc. XVII. A ordem objetivada em Hobbes cumpriria, em primeira instância, não o fim em um soberano per se, mas a estabilidade de um mercado que desde o Séc. XVII ganhava força expropriando os sentidos e os valores de algo que se valha apenas como sociedade. A figura do leviatã alocado nas condições materiais do Estado busca controlar a degradação do homem. Porém, as práticas degradantes desse mesmo homem não se instituem em função, apenas, da sobrevivência do indivíduo, mas pela sua própria exploração. O clássico autor, relido para as Relações Internacionais, equipara o homem a qualquer outro animal, enquanto um ser dotado, em seu nascer, de todos os sentidos. Todavia, o homem em Hobbes permeia, também, o campo da imaginação, dos desejos, do espírito. Assim, em seu texto, ‘(…) além da sensação e dos pensamentos e, da cadeia de pensamentos, o espírito do homem não tem qualquer outro movimento, muito embora, com a ajuda do discurso e do método, as mesmas faculdades possam ser desenvolvidas a tal ponto que distinguem os homens de todos os outros seres vivos’. Contrário a Descartes, Hobbes pressupõe nossa existência em função de uma intencionalidade que se torna presente em função do corpo e do espírito, ou das necessidades fundamentais do homem e do seu próprio desejo, alertando que a sua razão e o seu anseio emocional condicionam o seu mesmo comportamento. Nesses termos, o desequilíbrio dessa composição do mesmo homem induz a construção de uma estrutura que o corrói. Estrutura essa que, em contrate à perspectiva utilitária (iluminada por Descartes), compreende o mercado como uma instituição prenhe de intencionalidade. Nesses termos, o mesmo mercado polanyiano, dito como “moinho satânico”, soa como um processo social institucionalizado que corrói a própria sociedade. Ora, não satisfeito com suas inconstâncias entre corpo e espírito, o homem potencializa os seus paradoxos com o mal como seu fim último. Onde está a sua clarividente razão erguida da simples relação entre custo e beneficio?

 

Retomando um diálogo com o filme em destaque, Hobbes fala do Lobo, busca um Estado, mas o seu fim último foi o utópico. Em suas palavras: “A razão é o passo; o aumento da ciência, o caminho, e o benefício da humanidade, o fim”. Temo que Wall Street, enquanto espaço ampliado de uma prática consentida, não seja uma metáfora da sociedade, mas sim a sua completude ou a sua essência. Esse cenário causa espanto, pois aclara que inexiste sociedade, tão pouco um benefício humano compreendido como forma a ser buscada. A ordem hobbesiana é o primeiro passo para tal fim. Porém, a ‘ordem’ financeira internacional antecede, como caos, o desejo em buscar um benefício comum acentuando os custos desse mesmo sistema social.

Referências:

AGNEW, John. Hegemony: the new shape of global Power. Temple University, 2005.

The Wolf of Wall Street. Dirigido por: Martin Scorsese. Paris Filmes. 1 DVD. 2h59min. 2014

 

Escrito por: Pedro Neves (doutorando em Relações Internacionais pela PUC-Minas, Professor do curso de Relações Internacionais do UniBH e membro do  Grupo de Pesquisa sobre Potências Médias)

 

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