Comenta-se: Cox e um dos seus argumentos hoje

Comenta-se:

A partir do pressuposto de que as relações sociais, ou o passado social de uma nação serve como explanado e/ou explanando para as relações de consumo e produção, visto que cada espaço apresentaria suas características próprias levando em consideração as suas especificidades marcadas pelo tempo. Esse é o argumento de Robert Cox, embebido na relação passado/presente de Gramsci, no nono capítulo do livro Production, Power and World Order, lançado em 1987 pela Columbia University Press.

Imediatamente alguns pontos podem ser construídos em paralelo para se compreender a aplicação desse pressuposto vinte cinco anos após sua exposição. Primeiramente, importa elucidar que em 1987 Cox disserta sobre uma nova mudança qualitativa e quantitativa no bloco histórico capitalista, que implicou ou implicaria cada vez mais em uma competição produtiva e financeira entre os grupos sociais e os estados, formando a ideia de estado corporativista.

Curiosamente, Harvey (2005, 2011, 2012) reforça o que Cox havia colocado a respeito, desenhado as engrenagens do capitalismo, que esboçam uma trajetória competitiva eterna, tendo em visto a constante necessidade de acumulação, concentração e reinvestimento do capital. O que avança os pressupostos de Marx sedimentados na dialética e na “precisão” da formação de uma “sociedade regulada”. Ora, o que Cox apontara como uma mudança superestrutural a partir da crise hegemônica, e não orgânica, da Pax Americana (Pós-1945), Harvey aponta como nova etapa de acumulação do capital que explora o sistema a condições elevadas, como nunca antes acontecido.

Retomando o pressuposto de Cox, o passado oferece as estruturas para o presente, e no nono capítulo o autor argumenta sobre a “escolha” tecnológica para transformação da produção conforme os sedimentos históricos da sociedade. Disso, explica-se a não intervenção da sociedade americana frente ao fordismo (produção e consumo em massa), uma vez que os grupos tradicionais que implicariam com essa transformação estavam alocados na Europa. Concordante com Gramsci, Cox recupera a ideia de que o Fascismo fora uma reação ao avanço do fordismo pelo norte italiano, ponto este que é também tocado por Karl Polanyi a partir da sua compreensão sobre a sociedade de mercado e as mazelas construídas pela não regulamentação social do capital.

Porém, compreendidas as interseções entre as ideias lançadas, e alertado sobre a importância social para as transformações posteriores nas relações sociais de produção, o que a atualidade oferece como desafio interpretativo?

Observando amplamente, o que nos parece ser indicado é um consumo e produção, ou modo de produção, em vigor homogêneo, com poucas variações conforme os espaços. Alguns símbolos da atualidade cada vez mais presente (parecem tolos, mas vá explicá-los e tem-se dificuldade para apresentar uma lógica clara e segura): Consumo cada vez mais dos mesmos produtos de forma transnacionalizada; reprodução de um comportamento, também transnacionalizado; reprodução de ideias e imagens em uma velocidade incalculável agrupando uma proximidade assustadora do significado dessas mesmas para pessoas de locais muito diferentes. E ainda mais, como tecnologia comum de consumo, padrão de alimentação mundial, etc, etc, etc.

Uma imagem pode dizer, ou não, alguma coisa:

 

Ora, o que todas essas questões podem lançar é a dúvida sobre o presente construindo sedimentos fundamentais para as etapas futuras dos modos de relações sociais de produção. As fronteiras para o avanço “expropriativo” do capital têm sido saltadas com grande facilidade. Imagem disso, e curiosa que serve como exemplo, é a Índia. Local concebido na história imperialista britânica como cultura oriental e logo, atrasada, vírgula e etcétera. Tem-se conhecimento dessa construção racista que há muito justificara a dominação de um povo sobre o outro. Todavia, não era de se esperar algum dia que um grupo de investidores indianos se tornasse um dos maiores acionistas no segundo maior clube inglês, o Manchester United, ou era? Ou, em caráter mais amplo, que a Ásia fosse o polo de produção daquilo que usamos na praticidade do dia-dia.

Certamente, assim como, em outras marcas temporais, a organização social produtiva apontara uma nova construção e organização humana. A atual disposição das relações sócias de produção é turbulenta e apresentam impactos reais, como o avanço chinês pelo petróleo africano, ou por outros insumos básicos na América Latina. Porém, há apenas uma ou duas décadas esse processo de canalização da produção mundial para a Ásia tem se estruturado com mais vigor. E há ainda muita cacofonia acerca das transformações futuras, uma vez que já as vivemos e as ideias precisam acompanhar a velocidade dessas mudanças.

Cox não tem seu argumento refutado com essa nova etapa, ao que tudo indica, de acumulação e produção. Muito ainda precisa ser analisado, e como essa postagem é apenas um comentário, dá-se por concluído, porém aberto essa mesma não oferece espaço e tempo hábeis para ampliar o escopo da análise. Todavia, a cada linha surgem mais dúvidas e incertezas sobre as bases produtivas e acumulativas do capital, além do alarme acerca da sua insustentabilidade em longo prazo… ao menos a rotatividade das crises têm composto um sonido crítico que deixou de ser inaudível no mundo.

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