Prospectos da mudança

Em seu último artigo, Amna Silim, parceira do Instituto para Pesquisa em Política Pública (UK), argumenta sobre uma nova era econômica que deve ser compreendida como novo caminho para o século XXI. Cabe destacar que a autora perpassa todas as ideias reforçando os limites de PIB como termômetro de progresso e desenvolvimento para a sociedade. Pretende-se nesta breve apresentação relacionar os principais pontos do paper em destaque veiculado através de um think tank britânico progressista com alguns veículos de informação anglo-saxões. O objetivo não é mensurar o alcance de um argumento ou a capacidade explicativa e prática do mesmo, mas apenas apresentá-lo sob um palco de informações diárias que instruem, fomentam debates e formam opiniões dos leitores do espaço social em destaque, como também de outras regiões no mundo.

Esse debate se torna interessante ao alocarmos no momento de insustentabilidade econômica, a qual desde 2008 tem criado danos sociais profundos em países variados. Primeiramente o Instituto oferece, nessa discussão, sua estrutura com preocupações e construções progressivas para a sociedade britânica. Logo, um tanto quanto diferente dos construtos de Thatcher cerca de 30 anos atrás. Postula-se que seus objetivos perpassam por provocar novos pensamentos sobre a economia; compreensões sobre o papel político e a capacidade de tornar os projetos econômicos mais positivos; e contribuir para a as mudanças progressiva no Estado e na sociedade.

Ora, alguns ventos têm soprado diferentemente das rajadas puramente mercadológicas há tanto defendidas com debates efusivos na Casa dos Comuns. A autora em destaque afirma que essa nova perspectiva emerge em um debate com os paradigmas clássicos e neoclássicos. Compreendendo-os e apresentando novas ideias, e, para tanto, o avanço condiz com a questão que agora não é pensar sobre como opera a economia, mas com qual fim se faz operar. Precisamos saber os fins, diz a mesma, para depois começar a construir essa nova economia.

O argumento principal do seu paper é: O PIB sozinho não é um termômetro para se construir ou se buscar o bem-estar social. Este camufla questões relacionadas à qualidade da educação, da saúde, segurança, participação, etc. Pontos estes, dentre outros, que estão relacionadas a uma ideia de bem-estar. A autora coloca que a nova economia deve superar a ideia de apenas crescimento material, ou via análise de produto interno bruto. Mas isso não quer dizer que o PIB não importe para estruturarmos tanto o crescimento econômico como o bem-estar social, pois é muito relevante, mas sozinho se torna insustentável dependendo dos fins traçados.

O grande problema que nos encara é que o PIB, desde a década de 1950, se tornou a principal medida para o progresso. Justifica-se tal construção tendo em vista que o seu crescimento poderia ser o melhor caminho para ajudar as pessoas em seu desenvolvimento pessoal, como no combate a pobreza e a outras mazelas sociais. Todavia, como reforça a autora, a pobreza não está ao alcance apenas do aumento da renda, ou pior, da média da renda das pessoas em um dado espaço. Cabe destacar que pontos como a saúde, a segurança, a educação e outros elementos se afiguram no cerne da mesma. Silim faz recuperar a ideia de que o PIB é apenas um indicador quantitativo, o qual é muito importante para o equilíbrio entre oferta e demanda em diversos níveis econômicos dentro de um Estado. Repetindo: um indicador quantitativo. Reforçando: que se estrutura através de uma média simples entre todos os cidadãos.

Em suas palavras, “It is important to remember that GDP is a monetary measure of economic activity. Money can be spent on any marketed good or service, and the act of spending provides a clear measure of how goods and services are rated against each other – by individuals and, at the aggregate level, across the economy as a whole” (p.4).

O crescimento do PIB não quer dizer apenas que as pessoas terão mais possibilidades materiais, mas também possibilidades de escolha. Ambos os pontos criam a expectativa de aumentar o bem-estar. Outros elementos justificam, por outro lado, a importância do PIB, como a questão do desemprego e a alimentação. Esses são subentendidos como estáveis através do crescimento do próprio PIB, e para tanto importam.

Todavia, a autora retoma suas colocações iniciais e argumenta que o crescimento econômico deve ser um meio para um fim: ajudar a aumentar a felicidade, o bem-estar e a capacidade de escolha das pessoas. Porém, hoje, o crescimento material tem sido a toada principal da sociedade, e seus efeitos no trabalho, na sociedade e no meio ambiente tem apresentando uma face degradada dessa formação. Pode-se relacionar essas colocações da autora com as ideias apresentadas por Polanyi há 70 anos na Grande Transformação. Nesta, há a desvinculação do mercado da sociedade, tornando a última uma esfera que giraria em função das demandas produtivas de um sistema. O resultado para o autor austríaco foram os contramovimentos da sociedade, os quais se apresentaram em formas simples como regras sanitárias e direitos do trabalho, como também em uma estrutura social e complexa como o nazifascismo.

Outro ponto destacável no texto é a exposição dos modelos de bem-estar que a autora apresenta. O primeiro, seguindo pesquisas francesas, apresentam oito itens, a destacar: Material living standards (income, consumption and wealth);  Health;   Education;  Personal activities, including work; Political voice and governance; Social connections and relationships (including care within families); Environment (including noise, air and water pollution, reduced ecosystem health and natural disasters)   Insecurity (physical and economic).

Importa destacar que alguns pontos associam e dependem do crescimento material, enquanto outros demandam construções políticas e sociais sustentáveis. Em segundo lugar apresenta-se o modelo canadense, enfatizando: democratic engagement, community vitality, education, environment, healthy populations, living standards, leisure and culture, and time use. E por ultimo o modelo britânico, postulado pelo Office for National Statistics (ONS). Este, combines people’s quality of life, environmental and sustainability issues and economic performance (…). This found that family, friends, health, financial security, equality and fairness are fundamental in determining wellbeing.

Em apontamentos para o fim, Silim ainda soma a esses modelos o papel da escolha como elemento também fundamental para o bem-estar social. A autora cita como referência o conceito de capabilities de Amartya Sen, o qual apresenta a capacidade das pessoas em fazer e transformar. E nesse caso, é a capacidade para melhorar seu próprio bem-estar.

Por fim, toda essa construção por uma nova economia esta alicerçada a questão da sustentabilidade compreendida como o provimento para as gerações futuras. Sustentabilidade compreendida para além das considerações ambientais, associada a questões sociais e monetárias; como também à ideia de governança compreendida como a criação de uma estrutura que fomente a aplicação dessas novas ideias em níveis políticos variados.

Ora, o paper apresentado se torna muito sugestivo para se buscar novas alternativas, ou ao menos para uma reflexão não direcionada a respostas puramente econômicas. Algo a mais deve ser feito, principalmente em tempos de crise como o agora vivido.

Indiretamente essa apresentação dialoga com as esferas coevolutivas destacadas por Harvey (2011), as quais precisam ser compreendidas e trabalhadas em conjunto para um fim econômico e social. E para tanto, o autor britânico afirma que o primeiro passo está nas concepções de mundo que compartilhamos; e aquilo que justifica e compreende apenas no crescimento material, ou acumulação infinita do capital, girariam constantemente o moinho satânico que Polanyi afirmou existir durante todo século XIX. Porém, décadas após a análise história da Grande Transformação, o moinho parece reconfigurar e “perpetuar” os embates entre sociedade e mercado.

Quanto às concepções de mundo, um objeto para ler e compreender formas e ideias é o jornal. Estes destacam tanto as atividades e transformações humanas em caráter diário, como também fomentam a mente e o comportamento com ideias e colocações que podem tanto favorecer o status quo quanto a mudança. Gramsci, no caderno 24 de 1934 faz uma análise acerca do jornalismo por uma compreensão dialética (material e histórica) no contexto italiano e europeu. Destaca que o jornalismo “não somente pretende satisfazer todas as necessidades (de uma certa categoria) de seu público, mas pretende também criar e desenvolver essas necessidades e, consequentemente, em certo sentido, gerar seu publico e ampliar progressivamente sua área” (2010, P.197). O autor oferece relevantes contribuições para se trabalhar esse objeto, tanto em termos metodológicos como também filosóficos. Sua compreensão e estudo acerca da linguística, além das considerações acerca dos intelectuais, agrupam ideias que alcançam análises sobre revistas, livros, enciclopédias e jornais. Independente do tipo de material o autor afirma que importa a construção de uma leitura crítica. Segundo o autor, esse “trabalho necessário é complexo e deve ser articulado e graduado: deve haver dedução e indução combinadas, a lógica formal e a dialética, identificação e distinção, demonstração positiva e destruição do velho. Mas não de modo abstrato, e sim, concreto, com base no real e na experiência efetiva” (2010, p.206). Nesses termos, importar elucidar que o autor italiano busca compreender e analisar criticamente os elementos da sociedade civil e sociedade política italiana através de um caráter orgânico, compreendendo que o campo das ideias e as construções materiais sociais se somam, ora em uma estrutura que sedimenta uma organização hegemônica social, ora com o desmembramento de um espaço como na Itália anterior ao Risorgimento quando os interesses provinciais mercantes das cidades-estados italianas e o poder e interesse papal na península retardaram o processo de unificação italiana sob um regime absolutista comum nesse tempo em outros espaços europeus.

Os apontamentos gramscianos servem aqui apenas como uma direção para podermos, em caráter muito superficial, apresentar uma estrutura simples de ideias relacionadas (ou não) com as linhas iniciais desse post. Para tanto, passe-se ao destaque dos seguintes jornais virtuais anglo-saxões: The Thelegraph (Inglaterra) e Washington Post (Estados Unidos). Os campos escolhidos para destacarmos as principais notícias são: economics/finance (notícias e opiniões).

Em início, o jornal britânico apresenta no dia 11 de abril de 2012 (acesso 12 horas) as seguintes reportagens:

The Telegraph – Campo de finanças: 1 – “Euro crisis: Rajoy says ‘clear as day’ that Spain will not need bailout”; 2 – “Pension risks threaten UK finances, IMF warns”;

Pode-se destacar que todas as notícias do fim desta manhã veiculam ideias relacionadas ao momento atual econômico europeu e mundial. Este se refere à crise financeira iniciada em 2008. A primeira reportagem apresenta as colocações do líder espanhol, Mariano Rajoy, afirmando que, apesar das dívidas, a Espanha não irá a Bruxelas (Banco Central Europeu) atrás de ajuda financeira para salvaguardar o país de drásticos cortes e conflitos. Sua dívida (da Espanha) gira em torno de 300 bilhões de dólares, e teria de prontidão metade desse montante para manter equilibrada a economia. A grande preocupação esta relacionada com o fato da Espanha ser hoje a quarta economia europeia, segundo a reportagem; e esforços seguros devem ser feitos para manter seu equilíbrio. O fato curioso, porém sempre presente em crises financeiras, está relacionado com o aumento especulativo do preço do ouro com a notícia do desequilíbrio econômico e financeiro espanhol. Ora, o ouro ainda é visto como a base mais segura em momentos de ausência de patrimônio, ou melhor, em meio a papéis. Para nublar ainda mais o cenário, a reportagem segue com dados negativos da estrutura econômica do país, com destaque ao desemprego e a queda na produtividade. A saída, segundo o primeiro ministro e líder político é simples: corte de déficits em caráter urgente.

A segunda reportagem apresenta a preocupação dos economistas britânicos acerca do risco acerca da estrutura previdenciária do Estado. E esse alarde se aprofunda ainda mais, segundo a reportagem, em função das colocações do Fundo Monetário Internacional. As dívidas do Estado poderão alcançar as cifras dos 750 bilhões de libras em detrimento da estrutura previdenciária hoje encontrada. A resposta apontada pelo o governo seria vincular a idade da aposentadoria conforme as taxas da expectativa de vida. Países que apresentam taxas maiores de longevidade têm enfrentado sérios problemas no que se refere à contribuição/previdência; e para tanto, afirma-se que a hora para as alterações nesse sistema seria agora, diz a reportagem. Pode-se notar que a longevidade é lida em seu caráter econômico, e logo deixa de ser algo interessante para os gastos do estado. Reconhece-se o problema, e também o paradoxo, tendo em vista que a longevidade pode também ser associada ao bem-estar e a qualidade de vida da sociedade.

O jornal americano apresenta no dia 11 de abril de 2012 (acesso 12 horas) as seguintes reportagens:

The Washington Post: Campo Business: 1 – Growth of U.S labor force is slowing, reports show; 2 – Candidate do lead World Bank says organization needs ‘change of culture’.

A primeira reportagem traz a informação do Bureau of Labor Statitics sobre a desaceleração do crescimento do número de trabalhadores. Os impactos, segundo o Washington Post seriam a retenção do PIB e do emprego, ponto que reforça a possibilidade da economia se recuperar mais lentamente das recessões. Aqui a leitura da reportagem se aloca em uma preocupação sobre a demografia americana. A BLS reforça que dois problemas estão relacionados: o primeiro é que nascem, a cada ano, menos americanos. E além, a procura por trabalho é reduzida com o envelhecimento da população. O passado também traz implicações para o presente e para os próximos anos da economia americana. Aqui se reporta os tempos de babby-boomers, momentos nos quais o número de nascidos supera a média de anos anteriores. E no futuro isso implica tanto na desaceleração do trabalho e aumento na previdência. A parte mais curiosa dessa reportagem é destaque na afirmação de Anthony Carnevale, economista da Universidade de Georgetown. O intelectual afirma que, ao fim e ao cabo, a economia depende de quantos corpos você tem. Ora, basta essa breve colocação para demonstrar as bases do argumento e preocupações econômicas e produtivas americanas.

A segunda reportagem informa as colocações do candidato à liderança do Banco Mundial, Senhor José Antonio Ocampo (ex- Ministro de Finanças colombiano). Nesta, o destaque é sobre a mudança de cultura da organização. A mudança diz respeito a questões históricas da redução da pobreza, agora somada as preocupações climáticas e para tal, uma aproximação com outras organizações importa (ONU, por exemplo).

A guisa de uma breve conclusão poucas palavras serão necessárias. Primeiramente, o esforço singelo em apresentar inicialmente preocupações acerca de uma nova economia, e também notícias econômicas de apenas dois jornais, podem sugerir pouca relação com a situação na qual vivemos. Porém, essa pequena exposição de ideias e fatos busca contribuir apenas para elucidar, superficialmente, se as ações ou especulações frente aos fatos/problemas têm sido associadas a alguma mudança superestrutural, ou em caráter coevolutivo como sugerido por Harvey (2011).

As notícias apresentadas perpassaram pela crise financeira e os desdobramentos destas. As primeiras duas reportagens atrelaram respostas estritamente econômicas e quantitativas ao problema; as duas últimas, variaram tendo a primeira relacionado corpos a capacidade econômica americana, e a segunda fomentada pelos auspiciosos intentos de mudança cultural de um candidato à liderança do Banco Mundial. Ora, sabe-se que muitos elementos estão submersos nas entrelinhas, e ausentes no sentido geral devido o pequeno recorte construído. Porém, cabe ressaltar que o que Silim e o Institute for Public Policy Research proferem é uma mudança de ideia e de concepção; e a crítica ao PIB servira como hipóteses que alimenta essa demanda. Nesses termos, em um jogo de espelho entre o que se postula, em caráter geral, pelo paper apresentado e as soluções aos problemas econômicos reportados pelos jornais lidos, induz-se a pensar que prevalece um status quo por ideias e soluções condizentes com uma leitura econômica despregada do todo social. Ou como Polanyi construíra, o material se posta acima e demanda da sociedade tudo o que for necessário para que o próprio sistema sobreviva.

Estamos distantes de qualquer mudança, por mais que desejável e necessário, as mudanças urgiram ontem para que hoje pudéssemos equilibrar a relação entre o corpo social e tudo aquilo que o mesmo produz, inclusive a coisa que é colocada como mercado. Porém, apesar da urgência, pouco foi feito e muito ainda nos falta compreender para poder continuar.

Referência:

o Instituto – http://www.ippr.org/

o paper – http://www.ippr.org/publications/55/8951/wellbeing-choice-and-sustainability-what-should-economic-policy-target-in-a-new-era-economy

os jornais: http://www.telegraph.co.uk/ ; http://www.washingtonpost.com/

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